SUJEITO HOMEM
quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
segunda-feira, 29 de dezembro de 2014
Clube da Esquina n° 2 * The Corner Club * Os Sonhos não Envelhecem
Clube da Esquina n° 2 * The Corner Club * Os Sonhos não Envelhecem
sexta-feira, 26 de dezembro de 2014
quarta-feira, 24 de dezembro de 2014
VINICIUS, JOBIM, TOQUINHO e MIUCHA - Poeta, Poetinha, Camarada
VINICIUS, JOBIM, TOQUINHO e MIUCHA - Poeta, Poetinha, Camarada
domingo, 21 de dezembro de 2014
sexta-feira, 19 de dezembro de 2014
quinta-feira, 18 de dezembro de 2014
terça-feira, 16 de dezembro de 2014
segunda-feira, 15 de dezembro de 2014
quinta-feira, 11 de dezembro de 2014
Feet of Song - Pé da Canção
Feet of Song - Pé da Canção
Feet of Song de Erika Russel - Reino Unido - 1989 - Técnica mista. Melhor Filme pelo British Film Institute - Veja e curta esta linda animação e música - por canalPOETAeATEU
quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
Ecocardiograma com Doppler Colorido da minha mulher
Ecocardiograma com Doppler Colorido da minha mulher
domingo, 7 de dezembro de 2014
domingo, 30 de novembro de 2014
sexta-feira, 28 de novembro de 2014
sábado, 22 de novembro de 2014
sexta-feira, 21 de novembro de 2014
quinta-feira, 20 de novembro de 2014
Meu café, biscoitinhos, e o universo
Meu café, biscoitinhos, e o universo
( Um pequeno lanche no universo )
quarta-feira, 19 de novembro de 2014
terça-feira, 18 de novembro de 2014
segunda-feira, 17 de novembro de 2014
sábado, 15 de novembro de 2014
quarta-feira, 12 de novembro de 2014
domingo, 9 de novembro de 2014
sábado, 8 de novembro de 2014
quinta-feira, 6 de novembro de 2014
quarta-feira, 5 de novembro de 2014
segunda-feira, 3 de novembro de 2014
domingo, 2 de novembro de 2014
sábado, 1 de novembro de 2014
TV Globo - No Acre não tem criança ou não tem esperança?
TV Globo - No Acre não tem criança ou não tem esperança?
Um vídeo realizado em janeiro de 2012
sexta-feira, 31 de outubro de 2014
quinta-feira, 30 de outubro de 2014
quarta-feira, 29 de outubro de 2014
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
sábado, 25 de outubro de 2014
sexta-feira, 24 de outubro de 2014
quinta-feira, 23 de outubro de 2014
quarta-feira, 22 de outubro de 2014
segunda-feira, 20 de outubro de 2014
domingo, 19 de outubro de 2014
sexta-feira, 17 de outubro de 2014
quinta-feira, 16 de outubro de 2014
quarta-feira, 15 de outubro de 2014
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
domingo, 12 de outubro de 2014
sábado, 11 de outubro de 2014
sexta-feira, 10 de outubro de 2014
quarta-feira, 8 de outubro de 2014
terça-feira, 7 de outubro de 2014
sábado, 4 de outubro de 2014
quinta-feira, 2 de outubro de 2014
quarta-feira, 1 de outubro de 2014
domingo, 28 de setembro de 2014
sábado, 27 de setembro de 2014
sexta-feira, 26 de setembro de 2014
quinta-feira, 25 de setembro de 2014
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
A CONSTRUÇÃO DA TRANSCARIOCA - BRT VISTA DO MEU PORTÃO
A CONSTRUÇÃO DA TRANSCARIOCA - BRT VISTA DO MEU PORTÃO
( 2 anos em 8 minutos e meio )
quinta-feira, 18 de setembro de 2014
terça-feira, 16 de setembro de 2014
segunda-feira, 15 de setembro de 2014
domingo, 7 de setembro de 2014
sábado, 6 de setembro de 2014
sexta-feira, 5 de setembro de 2014
quinta-feira, 4 de setembro de 2014
terça-feira, 2 de setembro de 2014
segunda-feira, 1 de setembro de 2014
A Guitarra de Jimi Hendrix ao som de Little Wing
A Guitarra de Jimi Hendrix ao som de Little Wing
A Fender Stratocaster
domingo, 31 de agosto de 2014
sexta-feira, 29 de agosto de 2014
Um lindo poema de OMAR KHAYYÁM
Um lindo poema de OMAR KHAYYÁM na voz do POETA
( Poema 116 do livro Rubaiyat de Omar Khayyám, grande poeta, filósofo, matemático e astrônomo persa )
quinta-feira, 28 de agosto de 2014
THE WHO - Baba O'Riley
THE WHO - Baba O'Riley
No YouTube este vídeo foi bloqueado em alguns países por causa da música.
quarta-feira, 27 de agosto de 2014
terça-feira, 26 de agosto de 2014
segunda-feira, 25 de agosto de 2014
domingo, 24 de agosto de 2014
sexta-feira, 22 de agosto de 2014
segunda-feira, 18 de agosto de 2014
sexta-feira, 15 de agosto de 2014
Antiga Feira Nordestina de São Cristóvão
Antiga Feira Nordestina de São Cristóvão -
No YouTube este vídeo foi bloqueado em alguns países por causa da música
quinta-feira, 14 de agosto de 2014
terça-feira, 12 de agosto de 2014
domingo, 10 de agosto de 2014
sexta-feira, 8 de agosto de 2014
O 8° capítulo e a última parte do romance Caminhos de Artaud
Eis o 8° capítulo (RANI) e a última parte (O TEMPO PASSOU...) do romance CAMINHOS DE ARTAUD
RANIE ela chegou num dia brilhante, parecia frágil como uma gota de orvalho, e
forte como uma flor. Era um sonho real, uma filigrana na praia selvagem onde Artaud
descansava depois de mais uma tentativa frustada de embarque no aeroporto.
-Você não é o poeta que ontem fez aquela bonita apresentação entre os poetas
mais jovens? - perguntou a mulher.
-Sim, sou eu mesmo. Mas não estou me lembrando de você – disse ele.
-Eu estava sentada num cantinho do bar com uns amigos.
-Você freqüenta aquele bar? - perguntou Artaud.
-De vez em quando, quando estou aqui nesta cidade.
-E a praia?
-Muito raramente. Vim hoje porque não tem avião para Esperança – disse ela.
-É incrível! Eu também.
-Você também ia pegar o mesmo avião?
-Sim. A gente ainda não se apresentou. O meu nome é Artaud, e o seu?
-O meu é Rani.
-Rani é um bonito nome.
-Artaud também.
-Posso caminhar com você? - perguntou ele.
-Sim, pode.
-Antes vou fazer uma coisa – disse Artaud.
Artaud abriu a mala e tirou o filme que ia revelar, pôs no bolso, e depois correu
até à beira-mar lançando a mala às ondas.
-Pronto! Estou livre dela – disse Artaud.
-É, e ficou sem as suas roupas.
-Não tem importância, eu não gostava mesmo delas.
-Dizem que todo poeta tem um pouco de loucura – disse Rani.
-Você acredita nisso?
-Não. Como também não acredito em muitas coisas – disse Rani.
-Eu também.
-Acho que nós nos daremos bem – disse ela.
-Eu também acho. Vamos pra cidade comer alguma coisa? Estou morrendo de
fome.
-Vamos.
-Onde está a sua mala?
-Eu também joguei minha mala no mar – disse Rani.
Os dois riram muito e depois saíram caminhando à beira-mar. Ela por demais
fêmea, linda, sem pudor, soberana na Praia do Amor.
Num pequeno restaurante eles dividiram as despesas do almoço.
-Você pretende embarcar amanhã? - perguntou Rani.
-Sim, e você?
-Também.
-Então vamos embarcar juntos – disse Artaud.
-Mas, e até lá o que faremos? - perguntou Rani.
-Não sei.
-Vamos passear.
-É perigoso – disse Artaud.
-O perigo está em todos os lugares.
-É verdade. Mas... não temos nada a perder, não é?
-Mais alguma coisa, senhor? - perguntou o garçom.
-Não, obrigado.
-Vamos Rani!
E os dois saíram juntos pelas ruas de Paraíso. Em determinado momento, onde
duas ruas se cruzam, ele pegou a mão dela e foi prontamente correspondido. Mãos
sobre mãos e logo depois um ardente e longo beijo. Artaud e Rani desejavam-se
ardentemente um ao outro.
-Vamos fazer amor – disse Rani.
-Sim, mas onde?
-Veja! A porta está aberta – apontou Rani.
-A igreja!?
-Deve estar vazia.
-Então vamos.
Eles entraram discretamente. A igreja estava vazia e povoada por várias
estátuas e estatuetas com fisionomias lânguidas. Foram cada vez mais para o interior,
como se estivessem observando os arranjos, até que se depararam com uma porta
entreaberta, era a porta da sacristia. Entraram silenciosamente e se depararam com
uma belíssima mesa de mogno.
-Vamos Rani, aqui mesmo sobre a mesa.
-Feche a porta.
Artaud fechou cuidadosamente a porta. Depois, com carinho, tirou a calcinha
sob a saia de Rani. Ela deitou-se sobre a mesa e ali mesmo Artaud a possuiu como se
estivesse num sonho de adolescente. Rani era pura vibração carnal. Depois do ato os
dois trataram logo de se vestir.
-Ainda bem que não vivemos sob a doutrina do pecado – disse Artaud.
-As paredes desta igreja presenciaram um ato sublime – disse Rani.
Eles saíram da igreja e foram para uma praça. Sentaram num banco e, de mãos
dadas, ficaram observando as pessoas que passavam.
-Veja Rani, como esse povo é tão belo e ao mesmo tempo tão miserável.
-Ele não sabe a força que tem – disse Rani.
-Quando souber a história será diferente.
-E se nunca souber? - perguntou Rani.
-Então terá um fim trágico, como todos os povos que se deixaram abater –
respondeu Artaud.
-É um tempo horrível – disse Rani.
-Sempre foi. Deveriam apressar o tempo, a tempo de serem felizes – disse
Artaud.
-Esse povo é muito tolerante – disse Rani.
-Não deveria. Tolerante é a árvore que nos dá abrigo na vida e a madeira do
ataúde – disse Artaud.
-Agora vamos falar de nós, que a vida é curta e temos um longo caminho pela
frente – disse Rani olhando vivamente para ele.
-O que você faz, Rani?
-Sou professora, leciono para crianças.
-Tem que ter muita paciência, não é?
-Nem sempre, as vezes dá vontade de matá-los!
-Você deve ser uma boa professora.
-Sou suspeita pra falar. E você, além da poesia, o que faz?
-Sou um escritor que ainda não deu certo e um professor sem vocação.
-O escritor, certamente, dará certo. Você é um homem especial.
-Você é uma linda mulher em todos os sentidos.
E os dois se beijaram demoradamente. De repente, um homem apareceu na
praça.
-O amor é lindo! O amor é lindo! - gritava o louco.
Artaud e Rani riram dele, mas logo ficaram sérios.
-É um louco com certa consciência – disse Artaud.
-O verdadeiro louco não vê beleza no amor – disse Rani.
-A pior loucura é a dos homens que querem dominar a tudo e a todos – disse
Artaud.
-Você... - Rani é interrompida por um barulho de freada brusca, seguido por
um som abafado.
Todos correram para o lado de onde veio o barulho. Artaud e Rani também
correram em direção da aglomeração.
-Eu não tive culpa, não consegui frear a tempo. Devia ser um louco para fazer
isso – disse o motorista bastante abalado.
Artaud e Rani olharam para o chão e viram o louco da praça estendido, sem
nenhum reflexo, segurando uma flor amarela na mão.
-Está morto? - perguntou Rani.
-Sim, está – respondeu Artaud.
-Vamos sair daqui – disse Rani.
Artaud e Rani se afastaram do local.
-Você reparou? - perguntou Artaud.
-A flor na mão dele – respondeu Rani.
-Não, havia um sorriso na fisionomia dele. Ele morreu, quem sabe, feliz – disse
Artaud.
-Como o ser humano é estranho. Por uma atitude dele o chamamos de louco.
Mas a loucura, como tudo na vida, também é relativa. Tem muita gente que parece sã
e é doida, e tem muita gente que parece doida e é sã – disse Rani.
-Você tem razão.
-Para onde vamos? - perguntou Rani.
-Vamos para o hotel Paraíso.
-Mas não temos dinheiro suficiente – disse Rani.
-Sou conhecido lá, ficaremos só essa noite, partiremos de manhã e quando
derem por nossa falta já estaremos longe.
-Como vai me apresentar?
-Como minha esposa.
-E as malas!? Não temos malas.
-Diremos que fomos roubados perto do aeroporto – disse Artaud.
-Então vamos! Não temos nada a perder – disse Rani.
-Vamos querida! Uma bela cama nos espera.
Artaud e Rani chegaram ao hotel Paraíso ao anoitecer. O recepcionista
reconheceu Artaud.
-Já de volta, senhor Artaud?
-Houve um contratempo. Eu e minha esposa fomos roubados perto do
aeroporto, levaram as nossas malas – disse Artaud.
-Esta cidade está cada vez mais violenta – disse o recepcionista.
-Cada vez mais – disse Artaud.
-Aqui está a chave do seu quarto, o de sempre – disse o recepcionista.
-Obrigado. Vamos Rani. Ah! Por favor, pode nos servir uma refeição?
-Certamente. E para beber qual é o seu pedido?
-Uma garrafa de vinho tinto suave – disse Artaud
-Providenciarei imediatamente – disse o recepcionista.
Rani e Artaud foram para o quarto. Estavam no banho quando a campainha
tocou. Artaud enrolou-se na toalha e foi abrir a porta. Era um funcionário trazendo a
refeição.
-Aqui está, senhor.
-Obrigado. Pode deixar aqui mesmo.
Depois do banho, jantaram degustando o vinho tinto suave. Deitaram na
confortável cama e acabaram adormecendo juntos, um agarrado ao outro. Acordaram
ao mesmo tempo com um forte cheiro.
-Artaud, que cheiro é esse?
-Algo está queimando. Vou ver o que é – disse ele se vestindo rapidamente.
Quando Artaud abriu a porta o corredor estava tomado por uma densa fumaça.
“Fogo! O hotel está pegando fogo” - pensou ele fechando a porta
imediatamente.
-Rani, vista-se. Vamos sair daqui, há fogo neste andar.
-Fogo! Vamos descer logo – disse Rani vestindo rapidamente a roupa.
-Não adianta, Rani – disse Artaud olhando pela janela.
-Não!?
-O incêndio é no andar debaixo. Temos que subir. Vou pegar duas toalhas e
molhar bem.
Artaud pediu a Rani que pegasse uma das toalhas molhadas e a colocasse sobre
o nariz e a boca, e logo em seguida saíram do quarto envoltos pela fumaça. Foram
para o andar logo acima, mas lá também já havia bastante fumaça. Continuaram a
subir até que chegaram ao último andar onde havia uma pequena escada e uma porta
que dava para o terraço.
-Está aberta! - disse Artaud segurando Rani pelo braço.
Ambos correram pelo terraço procurando uma saída.
-O ar está quente! - disse Rani
-Veja! Há um vão daquele lado que dá para o prédio vizinho. Temos que pular
logo.
-Deve ter quase dois metros!
-Não temos escolha, há muita fumaça e fogo. Não poderão nos ver aqui – disse
Artaud.
-Não conseguirei – disse Rani.
-Vamos pular juntos, de mãos dadas. O parapeito é largo. Correremos sobre
ele, um ao lado do outro, para tomar impulso.
-É loucura!
-Vamos Rani! O fogo logo estará aqui deste lado e aí não teremos salvação.
A fumaça já estava envolvendo todo o terraço. Ambos jogaram as toalhas fora
e subiram no parapeito. Artaud ficou do lado externo e Rani do lado interno, ele
tentou olhar para baixo mas a fumaça não deixou.
É agora Rani! Vou contar de um a três e aí corremos e pulamos. Não largue a
minha mão.
Eles correram pelo parapeito mas pararam de supetão na junção dos dois lados
que ainda não havia muito fogo, a fumaça já estava ficando muito densa naquele
local.
-Vamos tentar novamente – disse Artaud.
-Depressa, meus olhos estão ardendo muito – disse Rani voltando alguns
passos para trás.
-Vamos! - gritou Artaud.
E os dois correram de mãos dadas pelo parapeito, tomaram impulso e
lançaram-se no espaço. Num piscar de olhos caíram no terraço do prédio ao lado que
estava num plano inferior de meio metro. Artaud e Rani rolaram pelo chão.
-Você está bem, Rani? - perguntou Artaud ainda sentado no chão do terraço.
-Acho que sim, machuquei um pouco o tornozelo.
-Estamos livres, vamos sair daqui – disse Artaud levantando-se do chão.
Artaud correu em direção de uma porta de madeira e observou que estava
trancada. Deu um impulso e lançou o pé sobre a porta, mas ela não abriu. Então
repetiu o gesto novamente, até que na terceira tentativa a porta abriu.
-Vamos, depressa – disse Artaud segurando o braço de Rani.
Desceram vários lances de escadas até que pararam em um dos andares.
-Não há ninguém neste prédio? - perguntou Rani.
-Este prédio é comercial, a essa hora não deve ter mais ninguém trabalhando
por aqui.
-Vamos logo sair daqui – disse Rani.
E eles desceram rapidamente as escadas. Chegaram ao térreo exaustos e saíram
do prédio caminhando lentamente.
-Vejam! É o senhor Artaud e a sua esposa – gritou o recepcionista do hotel.
Artaud e Rani se depararam com uma multidão observando o incêndio. Quando
olharam para o alto viram o hotel Paraíso totalmente envolvido pelas chamas.
-Senhor Artaud, nós pensamos que vocês estivessem mortos! - disse o
recepcionista.
-Ainda não foi dessa vez – disse Artaud.
-Demos o aviso de incêndio. Foi tudo muito rápido – explicou o recepcionista.
-Vamos senhores, vamos fazer um exame médico – disse um médico
bombeiro.
-Não se preocupe senhor Artaud, arrumaremos uma vaga para o senhor e a sua
esposa em outro hotel – disse o recepcionista.
-Obrigado. Alguém se feriu?
-Não, felizmente.
Rani e Artaud foram então atendidos pelo médico
-Como ela está, doutor? - perguntou Artaud.
-Está bem. Só teve uma pequena torção no tornozelo – disse o médico.
-Foi durante o salto de um terraço ao outro – disse Rani voltando com uma
bandagem no tornozelo.
-Vocês tiveram muita sorte – disse o médico.
-Fizemos a coisa certa na hora certa – disse Artaud.
Artaud e Rani não procuraram os responsáveis pelo hotel, afinal, iriam embora
dentro de poucas horas.
O dia amanheceu num arrebol deslumbrante. O casal observou o espetáculo
sentados num banco da praça, onde passaram, abraçados, o final de noite.
-O avião só deve levantar vôo às 7 horas. Vamos para o aeroporto, lá a gente
lava o rosto e toma o café da manhã – disse Artaud.
No aeroporto, Artaud encontrou o mesmo funcionário sonolento.
-Por favor, o avião para Esperança está pronto? - perguntou Artaud.
-Sim, decolará às 7 horas.
Artaud então comprou duas passagens. E do saguão observou o velho bimotor
na pista.
-Veja Rani! Finalmente o avião.
-O dia está lindo para voar – disse Rani.
-Sim, está lindo. Vamos tomar café.
Minutos depois o estridente auto-falante do aeroporto avisava: 'Vôo para
Esperança daqui a quinze minutos, por favor, dirijam-se ao Portão de Embarque'
Rani e Artaud foram caminhando pela pista. De repente, pararam e olharam
para trás por alguns segundos, depois deram-se as mãos e um beijo.
Às 7 horas e 9 minutos o velho avião levantou vôo. Lá do alto eles observaram
os destroços, ainda fumegantes, do que foi o Hotel Paraíso.
O TEMPO PASSOU...
Em outro lugar, não em Esperança, Artaud casou com Rani no civil. Tiveram
dois filhos e muitas histórias.
Num determinado dia, do tempo de suas vidas, eles observavam a fragilidade e
a leveza dos peixinhos num aquário. Enquanto Rani e as crianças admiravam os
peixinhos, Artaud olhou, como sempre fazia, para a bonita fotografia do lendário
navio encalhado. Era como um troféu pendurado na parede.
Artaud abraçou Rani e as crianças.
“São muitos os caminhos que um homem precisa percorrer para encontrar a sua
praia” - pensou Artaud.
-Olha Artaud! Como ficou lindo o navio no fundo do aquário! - e Rani deu um
lindo sorriso para Artaud.
****
Caminhos de Artaud
Romance de Antonio Fernando – terminado em 23-09-2003 – revisado em
março e abril de 2006 – novamente revisado em setembro de 2010 – e revisado
definitivamente em junho de 2012.
Digitalizado em junho de 2012 por Antonio Fernando.
Todos os Direitos Autorais são de Antonio Fernando V. de Almeida
Copyrights by Antonio Fernando
Registrado no Escritório de Direitos Autorais da Biblioteca Nacional
2012 - Rio de Janeiro - Brasil
quinta-feira, 7 de agosto de 2014
quarta-feira, 6 de agosto de 2014
domingo, 3 de agosto de 2014
sábado, 2 de agosto de 2014
quinta-feira, 31 de julho de 2014
Eis o 6º cap.(PARAÍSO) e o 7° cap. (CARPAS) do romance Caminhos de Artaud
Eis o 6° e 7° capítulos do meu livro Caminhos de Artaud
PARAÍSO
De volta ao hotel, Artaud pediu para ficar no mesmo quarto. Para a sua
surpresa, lá estava o filme no fundo da última gaveta da cômoda.
ACIDENTE AÉREO EM PARAÍSO MATA 6 E FERE 4
Artaud leu a principal manchete do jornal pendurado na banca, pagou um
exemplar e saiu lendo o diário. Numa manchete menor estava escrito: ACHADO O
CORPO DO FAROLEIRO. Artaud dobrou o jornal, colocou debaixo do braço e ficou
observando os pombos.
Preso pela casualidade e com vários pontos no braço, Artaud começou a
refletir: “Como a vida é grande e diversificada. Quantas formas de vidas num planeta
tão pequenino, perdido na imensidão de uma galáxia entre bilhões de outras. Quantas
vidas inteligentes o Universo guarda; e a prova mais concreta de que existe vida no
Universo somos nós mesmos! O cego não precisa enxergar pra saber que a luz existe.
As imensas distâncias ainda não permitiram um contato, mas isso não impede que
saibamos que a vida se espalha pelo Universo. Só na nossa galáxia são mais de
duzentos bilhões de estrelas. Multiplicando todas essas estrelas por bilhões de
galáxias teremos uma infinidade de planetas com uma infinidade de formas de vida.
É Artaud... definitivamente não estamos sós no Universo”. De repente, uma revoada
de pombos encheu o espaço.
De volta ao hotel, pegou os originais de seu romance inacabado, folheou
algumas laudas tentando achar uma nova inspiração, mas nada de literatura veio em
sua mente ocupada com as imagens fragmentadas do acidente. Artaud foi até a janela
e inspirou fundo o ar fresco daquele dia.
“Vou pegar o avião daqui a três dias, e em Esperança darei um novo rumo em
minha vida” - pensou Artaud observando o arrebol do pôr do sol.
O sol nasceu radioso por sobre as montanhas de Paraíso naquele primeiro dia
dos três que Artaud deu a si mesmo. A Enseada do Homem Mau estava calma e
luzente, o farol era uma imagem de cartão postal e o navio encalhado não mais fazia
parte da paisagem daquele lugar. Artaud era um estranho, num lugar estranho, com
pessoas estranhas. Um homem pode conhecer todos os lugares, mas todos os lugares
não podem conhecer um homem. Aquele lugar não conhecia Artaud, mas Artaud
conhecia bem aquele lugar, parecido com tantos outros que conhecera. Afinal,
exploradores e explorados convivem em todo lugar. A crueldade do mundo nunca
tirou de Artaud a vontade de descobrir outros lugares, mesmo sendo esses lugares de
um mesmo lugar.
CARPAS
Além da Enseada do Homem Mau havia um casarão chamado A Casa dos
Poetas Malditos. Artaud, naquele dia de luminosidade e temperatura agradáveis,
resolveu que deveria conhecer aquele lugar. O casarão ficava numa alameda com
árvores frutíferas, de uma grande variedades de cores em suas ramagens. Artaud
tocou a campainha, não demorou muito apareceu um homem de baixa estatura e
fisionomia oriental.
-Bom dia! - cumprimentou o homem.
-Bom dia. Meu nome é Artaud, sou escritor e gostaria de conhecer a Casa. Vim
de longe e estou de passagem.
-Hoje não temos reunião, mas posso mostrar a Casa. Por favor, entre. Meu
nome é Shimamura.
-Obrigado, Shimamura.
Artaud entrou e logo reparou que estava num bonito e bem cuidado jardim.
Havia um lago ornamental com vários peixes.
-Que peixes lindos! - observou Artaud.
-Sim, são carpas. Você certamente já viu outras em outros lugares, eu presumo.
-Certamente, mas estas daqui tem um colorido que não tinha visto ainda- disse
Artaud.
-As carpas são originárias da antiga Pérsia e na antiguidade foram levadas para
o extremo oriente. Foi no século XIX, no oriente, que surgiram as carpas coloridas
para fins ornamentais. Elas podem viver 70 anos, mas há relatos de carpas que
viveram mais de 200 anos!
-É fantástico! Como um peixe ornamental pode viver tanto? - perguntou
Artaud.
-São peixes resistentes. Agüentam bem as variações de temperatura.
Shimamura levou Artaud para uma sala com uma decoração simples, tendo nas
paredes fotografias de escritores famosos e não famosos.
-Você é poeta? - perguntou Shimamura.
-Sim, e também prosador.
-A prosa exige muito trabalho – disse Shimamura.
-E a poesia um tempo para a decantação.
-A poesia é o sangue da literatura – disse Shimamura.
-Veja as carpas, cada uma é como se fosse um poema de uma poesia quase
perfeita – disse Artaud.
-Gostaria de viver duzentos anos como elas – disse Shimamura.
-A nossa obra viverá. Quem é ele? - perguntou Artaud enquanto olhava a
fotografia de um jovem poeta.
-Chamava-se Lomba. Morreu muito moço. Colocava seus poemas em grandes
painéis feitos por ele mesmo, e depois cobria as paredes da universidade local com
eles.
-O que nos move é saber que a poesia é eterna – disse Artaud.
-A poesia viaja por entre as galáxias – disse Shimamura.
-Em qualquer parte do Universo, onde houver vida inteligente, a poesia estará
presente – disse Artaud enquanto apontava para outra foto.
-Quem é esse?
-É Anton, fisicamente ele despertava muita curiosidade por não possuir a
mandíbula. Há muitas histórias sobre ele, mas uma coisa é certa, era um autêntico
poeta maldito – disse Shimamura.
-Está vivo? - perguntou Artaud.
-Ninguém sabe. Ele simplesmente desapareceu. Veja aqui um poema dele.
Artaud pegou a folha de papel e leu em voz alta.
-Como uma agulha em brasa
fino aço incandescente
perfurante
a poesia deve ser assim
candente
para cauterizar as feridas
de uma sociedade doente
Artaud passou a folha para Shimamura e sentou numa cadeira.
-Parece que fiz esse poema – disse Artaud.
-Por isso somos malditos! Damos à poesia um sentido maior. Bem-vindo à
nossa Casa, amigo.
-Obrigado, Shimamura. Mas devo ser, primeiramente, apresentado aos demais
membros da Casa.
-Mas você já foi apresentado, estão todos aqui – e Shimamura apontou para as
fotografias nas paredes e sobre os móveis.
-Você é o único membro da Casa? - perguntou Artaud.
-Não. Agora somos eu, você e eles. Já é um bom começo, não é?
Artaud não ficou de todo decepcionado, pois aquele homem não estava louco,
estava apenas trabalhando com fervor poético. A Casa dos Poetas Malditos existia e
tinha o seu guardião.
-Por favor, escreva aqui um poema seu – pediu Shimamura a Artaud
estendendo-lhe uma folha de papel. Artaud pegou a folha e escreveu:
Que a poesia seja um lindo arrebol
nos dois lados do mundo
de uma Terra comum
perdida nos arredores do infinito
Neste pequenino planeta
o ser que ondula o espelho d'água
com um pingo de tinta
descobre que o finito da vida
é uma quimera no cosmos
Aqui nenhum homem é estranho
quando da borda da galáxia
na fronteira do dia e da noite
contempla o céu num ato de rebeldia
-Agora preciso ir, partirei daqui a dois dias – disse Artaud.
-Um momento – disse Shimamura caminhando para uma sala ao lado.
Minutos depois, Shimamura reapareceu trazendo uma máquina fotográfica.
-Permita-me que tire uma foto sua?
-Sim, pode fotografar. É uma bela máquina.
-É uma velha e boa Leica.
-Essas são as melhores – disse Artaud.
-Você também gosta de fotografar?
-Sim, também sou fotógrafo.
-É uma arte fascinante – disse Shimamura.
-Bom, pode fotografar.
Depois que tirou a foto, Shimamura leu o poema de Artaud em voz alta.
-Sim, é isso mesmo! Colocarei este poema na entrada da Casa, com a sua
permissão.
-Esteja à vontade. Agora preciso ir. Tchau, amigo.
-Aqui está o endereço para correspondência – disse Shimamura entregando a
Artaud um cartão.
-Até breve.
-Até breve – repetiu Shimamura.
E Artaud saiu da casarão com a certeza de que não mais voltaria aquele lugar.
De volta à rua sentiu os pontos apertando a carne do seu braço, não era uma sensação
ruim, era até agradável.
“A ferida está cicatrizando bem” - pensou ele.
A cada passada que dava, Artaud tentava alcançar o futuro em seus
pensamentos.
“O ar que eu respiro um dia os senhores do dinheiro e do mal darão um preço a
ele. Será cobrado um imposto, quanto maior o consumo de oxigênio maior será o
imposto. Quem fizer caminhadas, trabalho ao ar livre, exercícios físicos ou esportes,
pagarão uma taxa extra. Será decretado em todos os países o 'imposto sobre o ar
consumido'. Os pescadores pagarão a taxa extra. É Artaud... parece absurdo, mas há
séculos passados quem falasse que no futuro distante a água poderia ser cobrada,
seria chamado de louco. E no entanto, neste futuro do passado, a água que bebemos é
cobrada. Não Artaud! Tudo é possível sob o domínio do capital...”
-Puta que pariu! - xingou Artaud após dar um tropeção numa pedra,
interrompendo bruscamente as suas lucubrações.
Quando Artaud deu por si estava numa rua com casas de alvenaria maltratadas
pelo tempo.
“Os pobres são iguais em qualquer parte do mundo” - pensou ele enquanto
observava os imensos e alvos lençóis pendurados nos varais, inflados ao sabor do
vento, e as crianças brincando nos quintais.
Num dos quintais uma velha, com os cabelos totalmente brancos, estendia
roupas num varal. Artaud lembrou de sua mãe, em algum lugar distante no tempo,
fazendo o mesmo trabalho.
O fim da rua dava para uma praia do lado oposto à Enseada do Homem Mau.
Uma placa, colocada num poste, indicava: Praia do Amor. Artaud foi para a areia,
tirou os sapatos, arregaçou as pernas da calça e, como há muito tempo não fazia,
começou a correr à beira-mar. Correu até cair de costas na areia, ofegante e
extenuado. Sentiu-se como um menino, como aquele que foi na infância. O braço
latejava, mas Artaud não deu importância, afinal estava vivo e a vida é toda feita de
latejo. Assim ele ficou, deitado na areia, observando a lenta movimentação das
nuvens brancas, em forma de flocos, sob um lindo fundo azul.
“Além daquele azul, muito além, a única verdade universal é a da matemática”
- refletiu Artaud.
-Levanta Artaud! Vamos caminhar porque a vida é muito curta para um
universo infinitamente eterno – disse ele em voz alta.
Na Praia do Amor um trinado profundo de um pássaro, cortando o espaço
diante dele, ficou gravado em sua mente. Artaud olhou admirado para aquela ave e
pensou, com tristeza, na bestialidade humana que destrói tudo e todos.
“Artaud, não se esqueça que o pior inimigo do homem é o próprio homem. O
homem já matou mais semelhantes do que todas as pestes juntas. A grande desgraça
do homem é, e será, o próprio homem” - pensou ele.
O que esperar de uma sociedade extremamente desigual, injusta,
preconceituosa e egoísta, onde uma pequena elite, uma das mais cruéis do mundo,
domina tudo, fazendo dos meios de comunicações de massas um importante
instrumento de opressão. Artaud estava farto daquele lugar, daquele país. Naquele
frio, triste e solitário quarto de hotel, Artaud adormeceu pensando na infelicidade do
mundo.
O dia amanheceu com nevoeiro. Artaud acordou de frente para esse quadro
quase morto e sentiu uma profunda necessidade de ir ao encontro da natureza.
Através da bruma da manhã Artaud viu algo bastante grande, talvez um barco
tombado na areia. Ele correu em direção daquilo que suspeitava ser um barco.
Quando chegou perto ficou surpreso, o barco não era barco mas uma imensa baleia
encalhada, e para o seu espanto o animal estava vivo. Artaud ficou parado diante
daquela baleia sem saber o que fazer.
O nevoeiro se dissipou rápido, agora era possível ver claramente o imenso
animal brilhando sob os primeiros raios da luz da manhã. Da Taberna da Lua
Copérnico viu o imenso animal encalhado na praia e rapidamente pegou um
sinalizador, especialmente guardado para uma situação de emergência, e acionou o
disparador. O foguete fez uma trajetória luminosa sobre a praia da enseada. Na
colônia o pescador e seus companheiros viram o clarão.
-Vejam, companheiros! O Copérnico lançou o sinalizador.
-Estamos vendo. Aconteceu alguma coisa – disse um dos pescadores.
-Vamos pra lá! - disse o pescador.
-Sim, vamos.
O vento soprava forte sobre a Enseada do Homem Mau e Artaud, fascinado
diante do imenso animal, nem deu importância quando uma rajada de vento levou o
chapéu de sua cabeça.
Os homens chegaram perto da baleia.
-Ela está viva, temos que salvá-la! – disse Artaud.
-Que animal estupendo! - exclamou o pescador.
-Já vi muitas delas, mas só em alto mar – comentou um dos pescadores.
-Temos que agir logo – disse Copérnico.
-Cordas! - gritou um pescador.
-Sim, é isso. Vamos amarrá-la e puxá-la para o mar – disse Copérnico.
-É macho ou fêmea? - perguntou um dos pescadores.
-Não sei – disse Copérnico.
-É uma fêmea – respondeu o pescador.
-É a época da reprodução. Elas procuram as águas mornas – disse Artaud.
Os homens se reuniram e começaram a traçar um plano para o desencalhe do
animal.
-Sugiro que amarremos o animal pelas nadadeiras e pela cauda, e puxemos
com os nossos barcos – opinou o pescador.
-Então vamos buscar os barcos! – disse Copérnico.
Um grupo saiu para buscar os barcos. A comunidade chegou trazendo baldes.
Logo se formou uma imensa fila de homens, mulheres e crianças. Os baldes com
água foram passando de mãos em mãos para que todos, em volta do animal, jogassem
água no imenso corpo. Todos já não estavam admirando o animal, mas trabalhando
para ajudá-lo.
O barco do pescador foi o primeiro a chegar, logo em seguida chegaram mais
dois barcos. Todos ficaram perto da arrebentação. Os homens, na praia, começaram a
amarrar a baleia com as cordas, os que sabiam nadar entraram no mar levando as
cordas. Artaud ficou na areia, ele não sabia nadar.
Foi preciso muito esforço para passar pela arrebentação. Quando os homens
chegaram aos barcos amarraram as cordas. Os motores foram ligados, as cordas logo
ficaram tensas à medida que as rotações dos motores aumentavam, mas a baleia não
se movia. De repente, uma das cordas arrebentou e um dos pescadores de um dos
barcos caiu ao mar... mas voltou nadando. Os pescadores fizeram uma nova tentativa,
mas o animal de várias toneladas não se mexeu.
-É preciso arrumar uma embarcação maior – disse Artaud.
-Uma embarcação maior levaria mais tempo para chegar aqui – disse um
pescador.
Enquanto os homens confabulavam, as crianças passavam as mãos na baleia,
acariciando o animal. Dentro de seu barco o pescador, sempre atento, observou que
um navio passava ao largo. Era preciso agir rápido, o pescador foi até a popa, pegou
três sinalizadores e disparou um por um. Na praia as pessoas olharam os clarões no
céu e logo em seguida, para surpresa de todos, um sinalizador foi lançado do navio.
Era o sinal que o pescador queria. Os homens perceberam que o navio mudara de
rumo e estava vindo em direção deles. Todos na praia ficaram eufóricos.
-Eles perceberam do que se trata, devem estar vendo tudo com binóculos –
disse Artaud para um pescador ao lado.
O pequeno barco do pescador foi ao encontro do gigante que se aproximava.
Da praia um homem apontou um binóculo na direção do navio.
-É o Hércules! - gritou o homem.
-Só um Hércules para tirar esse animal daqui – disse um pescador.
-É o mesmo navio que esteve encalhado aqui? - perguntou Artaud.
-Sim, é ele mesmo. Veja você mesmo – disse o homem entregando o binóculo
a Artaud.
Artaud apontou o binóculo para o navio e viu o nome Hércules gravado na
proa.
-É ele mesmo, conheço bem aquele navio – disse Artaud.
O pequeno barco do pescador chegou perto do navio.
Eh! Comandante! Precisamos de ajuda para salvar a baleia! – gritou o
pescador.
-Lançaremos um cabo com um laço na ponta, coloquem o laço na cauda do
animal. Quando a baleia estiver na água afrouxem o mecanismo de apertar.
Entenderam? - falou o Comandante através de um megafone.
-Sim, Comandante! - respondeu o pescador.
Os marinheiros lançaram o cabo e o pescador, logo na primeira tentativa,
conseguiu pegá-lo.
-Vamos companheiros! A baleia nos espera – disse o pescador.
O barco do pescador fez meia volta e se dirigiu para a praia.
-Vejam! Estão trazendo um cabo! - gritou um pescador.
-Dessa vez eles vão conseguir – disse uma mulher com os cabelos negros
esvoaçando ao vento.
O pescador pulou do barco trazendo o cabo. Os homens que estavam na praia
correram para ajudá-lo.
-Vamos! Depressa! - gritou um pescador.
-Vamos colocar o laço na cauda – orientou o pescador.
Artaud, Copérnico e dois pescadores correram para colocar o laço na cauda da
baleia. Era preciso escavar por baixo da cauda do animal para passar a ponta do laço.
Os homens começaram a escavar pelos dois lados até completar a passagem para o
cabo. Juntaram as duas extremidades e fecharam o mecanismo de apertar o laço.
-Pronto! - gritou Artaud.
O pescador, dentro de seu barco, acenou para o navio. Em resposta o navio
saltou um longo apito e começou a puxar a baleia. O imenso animal começou a se
mover em direção ao mar. O cabo estava em sua tensão máxima. Aos poucos o
animal foi entrando no mar até ficar coberto pela água. Todos deram um Viva!! Mas,
o trabalho ainda não estava completo. Era preciso um ato de coragem para a
libertação total do animal.
A baleia estava cansada, por uns segundos pareceu que não ia reagir, mas, de
repente, ela saltou um esguicho e todos aplaudiram!
-O cabo! - alguém lembrou.
-Deixa comigo!
E Copérnico mergulhou no mar em direção à baleia. Ele era um homem forte e
um excelente nadador. Copérnico conseguiu chegar até a cauda e destravar o
mecanismo do laço, o animal ficou totalmente livre. A baleia tomou distância e deu
um lindo mergulho, mostrando toda a sua imensa cauda. Todos ficaram com uma
sensação de alívio, até que alguém gritou:
-Onde está o Copérnico!?
A mulher de cabelos negros saiu gritando pela praia.
-Copérnico! Copérnico!
Nada. Todos pararam. A alegria nos rostos agora era apreensão.
-A correnteza levou ele para o fundo. Não consigo vê-lo! - gritou o pescador
em seu barco.
Artaud ficou esquadrinhando o mar, mas tudo o que viu foi a baleia, ao longe,
dando um esguicho e desaparecendo sob as águas. As pessoas, agora tristes,
começaram a sair da praia. Algumas mulheres choravam e as crianças só falavam da
baleia. Naquela noite a lanterna da Taberna da Lua não ficou acesa e a enseada, desde
então, não seria mais a mesma.
No final da tarde, Artaud foi para o alto do penhasco do farol. Afinal, o pôr do
sol visto daquele lugar era um dos mais belos. Ele sentou sobre uma pedra e ficou
pensando sobre a vida.
“Tão curta e tão bela, tão desvalorizada pela raça humana e por todos que
detêm o poder de alguma forma. Mas no meio de tanto egoísmo ainda há alguma
solidariedade entre os homens de bem. Hoje um homem morreu para salvar uma
baleia, num gesto de puro heroísmo, num lugar conhecido pela maldade de outro
homem. Um ato de coragem frente a bestialidade”.
Artaud desceu do penhasco sentindo o peso das estrelas no firmamento. Num
bar de esquina, onde habitualmente reuniam-se poetas e vagabundos errantes, Artaud
sentou-se à uma mesa, pediu uma cerveja e ficou observando a movimentação das
pessoas de uma mesa ao lado. Eram pessoas alegres e logo Artaud sentiu que havia
algo em comum a uní-los. Um dos poetas, quase todos eram poetas, levantou-se da
cadeira e proferiu o seguinte poema:
sussurra um nome de mulher
saboreando gomos de tangerina
com raios de sol
afaga a terra ardente
como faz com o sexo em flor
da mulher amada
faz do verso uma lâmina
mais cortante que o fio da navalha
toca em estrelas no firmamento
brinca como uma criança
e embarca na esperança
beija os olhos da amada
olha o mundo novo
e faz um poema de amor
Todos os presentes aclamaram o poeta, até que outro levantou-se e declamou
outro poema.
Eu, caçador de relâmpagos,
indomável,
carrego em meus olhos
raios de fogo
infinitamente fugaz
Eu, que busco aprisionar
a beleza do mundo
solto a beleza do amor
que sinto e compartilho
com a minha amada
Muito bem!! Todos aplaudiram. Artaud, que observava com a maior atenção,
levantou e pediu a palavra.
-Por favor, gostaria de dizer algo – todos olharam para ele.
-Esteja à vontade, amigo – disse o poeta de cavanhaque.
-Estou feliz por estar aqui presenciando este momento de pura poesia. Também
gostaria de declamar uns versos.
-A praça é sua, companheiro! - disse um dos poetas.
E Artaud declamou os seguintes versos:
vejo uma estrela
cintilante passado
desde antes da história
e agora brilha em minha memória
que um dia a terra da Terra sorverá
e no entanto
num dia do futuro
em noites de estrelas
algum poeta contemplará
de pé na terra da minha terra
a estrela que preservei
e no final de um tempo efêmero
a nossa estrela se apagará
e não mais será estrela
e a Terra não mais será Terra
e no entanto
em outros mundos
outros olhos
guardarão na memória
o brilho do Sol
companheiro da Terra
Artaud foi aplaudido.
-Seja bem-vindo à plêiade, amigo – disse um dos poetas.
-Obrigado. É maravilhoso ver homens reunidos ao redor da poesia, se
aquecendo ao calor das palavras – disse Artaud.
Artaud saiu daquele bar com saudade dos poetas que conheceu no passado, dos
que conheceu naquele momento e dos que jamais conhecerá.
“A poesia é uma cosmonave circulando no tempo” - pensou Artaud.
Na manhã seguinte ele acordou bem cedo e preparou a mala. Breve deixaria
aquele lugar, talvez para sempre; no entanto um imprevisto mudaria o rumo da
história. O avião, um pequeno e velho bimotor, estava com defeito em um dos
motores e precisaria de mais um dia para o conserto. Artaud obteve a informação de
um funcionário ainda sonolento. Com pouco dinheiro, Artaud pegou a sua pequena
mala e resolveu ir para a praia, o único lugar que ainda se podia ficar sem gastar
dinheiro.
PARAÍSO e CARPAS - 6° e 7° Capítulos do romance Caminhos de Artaud. Obra registrada no Escritório de Direitos Autorais da Biblioteca Nacional - Rio de Janeiro - Brasil - 2012
ANTONIO FERNANDO
Assinar:
Postagens (Atom)