SUJEITO HOMEM

SUJEITO HOMEM

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Eis o 6º cap.(PARAÍSO) e o 7° cap. (CARPAS) do romance Caminhos de Artaud

Eis o 6° e 7° capítulos do meu livro Caminhos de Artaud

PARAÍSO
De volta ao hotel, Artaud pediu para ficar no mesmo quarto. Para a sua
surpresa, lá estava o filme no fundo da última gaveta da cômoda.
ACIDENTE AÉREO EM PARAÍSO MATA 6 E FERE 4
Artaud leu a principal manchete do jornal pendurado na banca, pagou um
exemplar e saiu lendo o diário. Numa manchete menor estava escrito: ACHADO O
CORPO DO FAROLEIRO. Artaud dobrou o jornal, colocou debaixo do braço e ficou
observando os pombos.
Preso pela casualidade e com vários pontos no braço, Artaud começou a
refletir: “Como a vida é grande e diversificada. Quantas formas de vidas num planeta
tão pequenino, perdido na imensidão de uma galáxia entre bilhões de outras. Quantas
vidas inteligentes o Universo guarda; e a prova mais concreta de que existe vida no
Universo somos nós mesmos! O cego não precisa enxergar pra saber que a luz existe.
As imensas distâncias ainda não permitiram um contato, mas isso não impede que
saibamos que a vida se espalha pelo Universo. Só na nossa galáxia são mais de
duzentos bilhões de estrelas. Multiplicando todas essas estrelas por bilhões de
galáxias teremos uma infinidade de planetas com uma infinidade de formas de vida.
É Artaud... definitivamente não estamos sós no Universo”. De repente, uma revoada
de pombos encheu o espaço.
De volta ao hotel, pegou os originais de seu romance inacabado, folheou
algumas laudas tentando achar uma nova inspiração, mas nada de literatura veio em
sua mente ocupada com as imagens fragmentadas do acidente. Artaud foi até a janela
e inspirou fundo o ar fresco daquele dia.
“Vou pegar o avião daqui a três dias, e em Esperança darei um novo rumo em
minha vida” - pensou Artaud observando o arrebol do pôr do sol.
O sol nasceu radioso por sobre as montanhas de Paraíso naquele primeiro dia
dos três que Artaud deu a si mesmo. A Enseada do Homem Mau estava calma e
luzente, o farol era uma imagem de cartão postal e o navio encalhado não mais fazia
parte da paisagem daquele lugar. Artaud era um estranho, num lugar estranho, com
pessoas estranhas. Um homem pode conhecer todos os lugares, mas todos os lugares
não podem conhecer um homem. Aquele lugar não conhecia Artaud, mas Artaud
conhecia bem aquele lugar, parecido com tantos outros que conhecera. Afinal,
exploradores e explorados convivem em todo lugar. A crueldade do mundo nunca
tirou de Artaud a vontade de descobrir outros lugares, mesmo sendo esses lugares de
um mesmo lugar.
CARPAS
Além da Enseada do Homem Mau havia um casarão chamado A Casa dos
Poetas Malditos. Artaud, naquele dia de luminosidade e temperatura agradáveis,
resolveu que deveria conhecer aquele lugar. O casarão ficava numa alameda com
árvores frutíferas, de uma grande variedades de cores em suas ramagens. Artaud
tocou a campainha, não demorou muito apareceu um homem de baixa estatura e
fisionomia oriental.
-Bom dia! - cumprimentou o homem.
-Bom dia. Meu nome é Artaud, sou escritor e gostaria de conhecer a Casa. Vim
de longe e estou de passagem.
-Hoje não temos reunião, mas posso mostrar a Casa. Por favor, entre. Meu
nome é Shimamura.
-Obrigado, Shimamura.
Artaud entrou e logo reparou que estava num bonito e bem cuidado jardim.
Havia um lago ornamental com vários peixes.
-Que peixes lindos! - observou Artaud.
-Sim, são carpas. Você certamente já viu outras em outros lugares, eu presumo.
-Certamente, mas estas daqui tem um colorido que não tinha visto ainda- disse
Artaud.
-As carpas são originárias da antiga Pérsia e na antiguidade foram levadas para
o extremo oriente. Foi no século XIX, no oriente, que surgiram as carpas coloridas
para fins ornamentais. Elas podem viver 70 anos, mas há relatos de carpas que
viveram mais de 200 anos!
-É fantástico! Como um peixe ornamental pode viver tanto? - perguntou
Artaud.
-São peixes resistentes. Agüentam bem as variações de temperatura.
Shimamura levou Artaud para uma sala com uma decoração simples, tendo nas
paredes fotografias de escritores famosos e não famosos.
-Você é poeta? - perguntou Shimamura.
-Sim, e também prosador.
-A prosa exige muito trabalho – disse Shimamura.
-E a poesia um tempo para a decantação.
-A poesia é o sangue da literatura – disse Shimamura.
-Veja as carpas, cada uma é como se fosse um poema de uma poesia quase
perfeita – disse Artaud.
-Gostaria de viver duzentos anos como elas – disse Shimamura.
-A nossa obra viverá. Quem é ele? - perguntou Artaud enquanto olhava a
fotografia de um jovem poeta.
-Chamava-se Lomba. Morreu muito moço. Colocava seus poemas em grandes
painéis feitos por ele mesmo, e depois cobria as paredes da universidade local com
eles.
-O que nos move é saber que a poesia é eterna – disse Artaud.
-A poesia viaja por entre as galáxias – disse Shimamura.
-Em qualquer parte do Universo, onde houver vida inteligente, a poesia estará
presente – disse Artaud enquanto apontava para outra foto.
-Quem é esse?
-É Anton, fisicamente ele despertava muita curiosidade por não possuir a
mandíbula. Há muitas histórias sobre ele, mas uma coisa é certa, era um autêntico
poeta maldito – disse Shimamura.
-Está vivo? - perguntou Artaud.
-Ninguém sabe. Ele simplesmente desapareceu. Veja aqui um poema dele.
Artaud pegou a folha de papel e leu em voz alta.
-Como uma agulha em brasa
fino aço incandescente
perfurante
a poesia deve ser assim
candente
para cauterizar as feridas
de uma sociedade doente
Artaud passou a folha para Shimamura e sentou numa cadeira.
-Parece que fiz esse poema – disse Artaud.
-Por isso somos malditos! Damos à poesia um sentido maior. Bem-vindo à
nossa Casa, amigo.
-Obrigado, Shimamura. Mas devo ser, primeiramente, apresentado aos demais
membros da Casa.
-Mas você já foi apresentado, estão todos aqui – e Shimamura apontou para as
fotografias nas paredes e sobre os móveis.
-Você é o único membro da Casa? - perguntou Artaud.
-Não. Agora somos eu, você e eles. Já é um bom começo, não é?
Artaud não ficou de todo decepcionado, pois aquele homem não estava louco,
estava apenas trabalhando com fervor poético. A Casa dos Poetas Malditos existia e
tinha o seu guardião.
-Por favor, escreva aqui um poema seu – pediu Shimamura a Artaud
estendendo-lhe uma folha de papel. Artaud pegou a folha e escreveu:
Que a poesia seja um lindo arrebol
nos dois lados do mundo
de uma Terra comum
perdida nos arredores do infinito
Neste pequenino planeta
o ser que ondula o espelho d'água
com um pingo de tinta
descobre que o finito da vida
é uma quimera no cosmos
Aqui nenhum homem é estranho
quando da borda da galáxia
na fronteira do dia e da noite
contempla o céu num ato de rebeldia
-Agora preciso ir, partirei daqui a dois dias – disse Artaud.
-Um momento – disse Shimamura caminhando para uma sala ao lado.
Minutos depois, Shimamura reapareceu trazendo uma máquina fotográfica.
-Permita-me que tire uma foto sua?
-Sim, pode fotografar. É uma bela máquina.
-É uma velha e boa Leica.
-Essas são as melhores – disse Artaud.
-Você também gosta de fotografar?
-Sim, também sou fotógrafo.
-É uma arte fascinante – disse Shimamura.
-Bom, pode fotografar.
Depois que tirou a foto, Shimamura leu o poema de Artaud em voz alta.
-Sim, é isso mesmo! Colocarei este poema na entrada da Casa, com a sua
permissão.
-Esteja à vontade. Agora preciso ir. Tchau, amigo.
-Aqui está o endereço para correspondência – disse Shimamura entregando a
Artaud um cartão.
-Até breve.
-Até breve – repetiu Shimamura.
E Artaud saiu da casarão com a certeza de que não mais voltaria aquele lugar.
De volta à rua sentiu os pontos apertando a carne do seu braço, não era uma sensação
ruim, era até agradável.
“A ferida está cicatrizando bem” - pensou ele.
A cada passada que dava, Artaud tentava alcançar o futuro em seus
pensamentos.
“O ar que eu respiro um dia os senhores do dinheiro e do mal darão um preço a
ele. Será cobrado um imposto, quanto maior o consumo de oxigênio maior será o
imposto. Quem fizer caminhadas, trabalho ao ar livre, exercícios físicos ou esportes,
pagarão uma taxa extra. Será decretado em todos os países o 'imposto sobre o ar
consumido'. Os pescadores pagarão a taxa extra. É Artaud... parece absurdo, mas há
séculos passados quem falasse que no futuro distante a água poderia ser cobrada,
seria chamado de louco. E no entanto, neste futuro do passado, a água que bebemos é
cobrada. Não Artaud! Tudo é possível sob o domínio do capital...”
-Puta que pariu! - xingou Artaud após dar um tropeção numa pedra,
interrompendo bruscamente as suas lucubrações.
Quando Artaud deu por si estava numa rua com casas de alvenaria maltratadas
pelo tempo.
“Os pobres são iguais em qualquer parte do mundo” - pensou ele enquanto
observava os imensos e alvos lençóis pendurados nos varais, inflados ao sabor do
vento, e as crianças brincando nos quintais.
Num dos quintais uma velha, com os cabelos totalmente brancos, estendia
roupas num varal. Artaud lembrou de sua mãe, em algum lugar distante no tempo,
fazendo o mesmo trabalho.
O fim da rua dava para uma praia do lado oposto à Enseada do Homem Mau.
Uma placa, colocada num poste, indicava: Praia do Amor. Artaud foi para a areia,
tirou os sapatos, arregaçou as pernas da calça e, como há muito tempo não fazia,
começou a correr à beira-mar. Correu até cair de costas na areia, ofegante e
extenuado. Sentiu-se como um menino, como aquele que foi na infância. O braço
latejava, mas Artaud não deu importância, afinal estava vivo e a vida é toda feita de
latejo. Assim ele ficou, deitado na areia, observando a lenta movimentação das
nuvens brancas, em forma de flocos, sob um lindo fundo azul.
“Além daquele azul, muito além, a única verdade universal é a da matemática”
- refletiu Artaud.
-Levanta Artaud! Vamos caminhar porque a vida é muito curta para um
universo infinitamente eterno – disse ele em voz alta.
Na Praia do Amor um trinado profundo de um pássaro, cortando o espaço
diante dele, ficou gravado em sua mente. Artaud olhou admirado para aquela ave e
pensou, com tristeza, na bestialidade humana que destrói tudo e todos.
“Artaud, não se esqueça que o pior inimigo do homem é o próprio homem. O
homem já matou mais semelhantes do que todas as pestes juntas. A grande desgraça
do homem é, e será, o próprio homem” - pensou ele.
O que esperar de uma sociedade extremamente desigual, injusta,
preconceituosa e egoísta, onde uma pequena elite, uma das mais cruéis do mundo,
domina tudo, fazendo dos meios de comunicações de massas um importante
instrumento de opressão. Artaud estava farto daquele lugar, daquele país. Naquele
frio, triste e solitário quarto de hotel, Artaud adormeceu pensando na infelicidade do
mundo.
O dia amanheceu com nevoeiro. Artaud acordou de frente para esse quadro
quase morto e sentiu uma profunda necessidade de ir ao encontro da natureza.
Através da bruma da manhã Artaud viu algo bastante grande, talvez um barco
tombado na areia. Ele correu em direção daquilo que suspeitava ser um barco.
Quando chegou perto ficou surpreso, o barco não era barco mas uma imensa baleia
encalhada, e para o seu espanto o animal estava vivo. Artaud ficou parado diante
daquela baleia sem saber o que fazer.
O nevoeiro se dissipou rápido, agora era possível ver claramente o imenso
animal brilhando sob os primeiros raios da luz da manhã. Da Taberna da Lua
Copérnico viu o imenso animal encalhado na praia e rapidamente pegou um
sinalizador, especialmente guardado para uma situação de emergência, e acionou o
disparador. O foguete fez uma trajetória luminosa sobre a praia da enseada. Na
colônia o pescador e seus companheiros viram o clarão.
-Vejam, companheiros! O Copérnico lançou o sinalizador.
-Estamos vendo. Aconteceu alguma coisa – disse um dos pescadores.
-Vamos pra lá! - disse o pescador.
-Sim, vamos.
O vento soprava forte sobre a Enseada do Homem Mau e Artaud, fascinado
diante do imenso animal, nem deu importância quando uma rajada de vento levou o
chapéu de sua cabeça.
Os homens chegaram perto da baleia.
-Ela está viva, temos que salvá-la! – disse Artaud.
-Que animal estupendo! - exclamou o pescador.
-Já vi muitas delas, mas só em alto mar – comentou um dos pescadores.
-Temos que agir logo – disse Copérnico.
-Cordas! - gritou um pescador.
-Sim, é isso. Vamos amarrá-la e puxá-la para o mar – disse Copérnico.
-É macho ou fêmea? - perguntou um dos pescadores.
-Não sei – disse Copérnico.
-É uma fêmea – respondeu o pescador.
-É a época da reprodução. Elas procuram as águas mornas – disse Artaud.
Os homens se reuniram e começaram a traçar um plano para o desencalhe do
animal.
-Sugiro que amarremos o animal pelas nadadeiras e pela cauda, e puxemos
com os nossos barcos – opinou o pescador.
-Então vamos buscar os barcos! – disse Copérnico.
Um grupo saiu para buscar os barcos. A comunidade chegou trazendo baldes.
Logo se formou uma imensa fila de homens, mulheres e crianças. Os baldes com
água foram passando de mãos em mãos para que todos, em volta do animal, jogassem
água no imenso corpo. Todos já não estavam admirando o animal, mas trabalhando
para ajudá-lo.
O barco do pescador foi o primeiro a chegar, logo em seguida chegaram mais
dois barcos. Todos ficaram perto da arrebentação. Os homens, na praia, começaram a
amarrar a baleia com as cordas, os que sabiam nadar entraram no mar levando as
cordas. Artaud ficou na areia, ele não sabia nadar.
Foi preciso muito esforço para passar pela arrebentação. Quando os homens
chegaram aos barcos amarraram as cordas. Os motores foram ligados, as cordas logo
ficaram tensas à medida que as rotações dos motores aumentavam, mas a baleia não
se movia. De repente, uma das cordas arrebentou e um dos pescadores de um dos
barcos caiu ao mar... mas voltou nadando. Os pescadores fizeram uma nova tentativa,
mas o animal de várias toneladas não se mexeu.
-É preciso arrumar uma embarcação maior – disse Artaud.
-Uma embarcação maior levaria mais tempo para chegar aqui – disse um
pescador.
Enquanto os homens confabulavam, as crianças passavam as mãos na baleia,
acariciando o animal. Dentro de seu barco o pescador, sempre atento, observou que
um navio passava ao largo. Era preciso agir rápido, o pescador foi até a popa, pegou
três sinalizadores e disparou um por um. Na praia as pessoas olharam os clarões no
céu e logo em seguida, para surpresa de todos, um sinalizador foi lançado do navio.
Era o sinal que o pescador queria. Os homens perceberam que o navio mudara de
rumo e estava vindo em direção deles. Todos na praia ficaram eufóricos.
-Eles perceberam do que se trata, devem estar vendo tudo com binóculos –
disse Artaud para um pescador ao lado.
O pequeno barco do pescador foi ao encontro do gigante que se aproximava.
Da praia um homem apontou um binóculo na direção do navio.
-É o Hércules! - gritou o homem.
-Só um Hércules para tirar esse animal daqui – disse um pescador.
-É o mesmo navio que esteve encalhado aqui? - perguntou Artaud.
-Sim, é ele mesmo. Veja você mesmo – disse o homem entregando o binóculo
a Artaud.
Artaud apontou o binóculo para o navio e viu o nome Hércules gravado na
proa.
-É ele mesmo, conheço bem aquele navio – disse Artaud.
O pequeno barco do pescador chegou perto do navio.
Eh! Comandante! Precisamos de ajuda para salvar a baleia! – gritou o
pescador.
-Lançaremos um cabo com um laço na ponta, coloquem o laço na cauda do
animal. Quando a baleia estiver na água afrouxem o mecanismo de apertar.
Entenderam? - falou o Comandante através de um megafone.
-Sim, Comandante! - respondeu o pescador.
Os marinheiros lançaram o cabo e o pescador, logo na primeira tentativa,
conseguiu pegá-lo.
-Vamos companheiros! A baleia nos espera – disse o pescador.
O barco do pescador fez meia volta e se dirigiu para a praia.
-Vejam! Estão trazendo um cabo! - gritou um pescador.
-Dessa vez eles vão conseguir – disse uma mulher com os cabelos negros
esvoaçando ao vento.
O pescador pulou do barco trazendo o cabo. Os homens que estavam na praia
correram para ajudá-lo.
-Vamos! Depressa! - gritou um pescador.
-Vamos colocar o laço na cauda – orientou o pescador.
Artaud, Copérnico e dois pescadores correram para colocar o laço na cauda da
baleia. Era preciso escavar por baixo da cauda do animal para passar a ponta do laço.
Os homens começaram a escavar pelos dois lados até completar a passagem para o
cabo. Juntaram as duas extremidades e fecharam o mecanismo de apertar o laço.
-Pronto! - gritou Artaud.
O pescador, dentro de seu barco, acenou para o navio. Em resposta o navio
saltou um longo apito e começou a puxar a baleia. O imenso animal começou a se
mover em direção ao mar. O cabo estava em sua tensão máxima. Aos poucos o
animal foi entrando no mar até ficar coberto pela água. Todos deram um Viva!! Mas,
o trabalho ainda não estava completo. Era preciso um ato de coragem para a
libertação total do animal.
A baleia estava cansada, por uns segundos pareceu que não ia reagir, mas, de
repente, ela saltou um esguicho e todos aplaudiram!
-O cabo! - alguém lembrou.
-Deixa comigo!
E Copérnico mergulhou no mar em direção à baleia. Ele era um homem forte e
um excelente nadador. Copérnico conseguiu chegar até a cauda e destravar o
mecanismo do laço, o animal ficou totalmente livre. A baleia tomou distância e deu
um lindo mergulho, mostrando toda a sua imensa cauda. Todos ficaram com uma
sensação de alívio, até que alguém gritou:
-Onde está o Copérnico!?
A mulher de cabelos negros saiu gritando pela praia.
-Copérnico! Copérnico!
Nada. Todos pararam. A alegria nos rostos agora era apreensão.
-A correnteza levou ele para o fundo. Não consigo vê-lo! - gritou o pescador
em seu barco.
Artaud ficou esquadrinhando o mar, mas tudo o que viu foi a baleia, ao longe,
dando um esguicho e desaparecendo sob as águas. As pessoas, agora tristes,
começaram a sair da praia. Algumas mulheres choravam e as crianças só falavam da
baleia. Naquela noite a lanterna da Taberna da Lua não ficou acesa e a enseada, desde
então, não seria mais a mesma.
No final da tarde, Artaud foi para o alto do penhasco do farol. Afinal, o pôr do
sol visto daquele lugar era um dos mais belos. Ele sentou sobre uma pedra e ficou
pensando sobre a vida.
“Tão curta e tão bela, tão desvalorizada pela raça humana e por todos que
detêm o poder de alguma forma. Mas no meio de tanto egoísmo ainda há alguma
solidariedade entre os homens de bem. Hoje um homem morreu para salvar uma
baleia, num gesto de puro heroísmo, num lugar conhecido pela maldade de outro
homem. Um ato de coragem frente a bestialidade”.
Artaud desceu do penhasco sentindo o peso das estrelas no firmamento. Num
bar de esquina, onde habitualmente reuniam-se poetas e vagabundos errantes, Artaud
sentou-se à uma mesa, pediu uma cerveja e ficou observando a movimentação das
pessoas de uma mesa ao lado. Eram pessoas alegres e logo Artaud sentiu que havia
algo em comum a uní-los. Um dos poetas, quase todos eram poetas, levantou-se da
cadeira e proferiu o seguinte poema:
sussurra um nome de mulher
saboreando gomos de tangerina
com raios de sol
afaga a terra ardente
como faz com o sexo em flor
da mulher amada
faz do verso uma lâmina
mais cortante que o fio da navalha
toca em estrelas no firmamento
brinca como uma criança
e embarca na esperança
beija os olhos da amada
olha o mundo novo
e faz um poema de amor
Todos os presentes aclamaram o poeta, até que outro levantou-se e declamou
outro poema.
Eu, caçador de relâmpagos,
indomável,
carrego em meus olhos
raios de fogo
infinitamente fugaz
Eu, que busco aprisionar
a beleza do mundo
solto a beleza do amor
que sinto e compartilho
com a minha amada
Muito bem!! Todos aplaudiram. Artaud, que observava com a maior atenção,
levantou e pediu a palavra.
-Por favor, gostaria de dizer algo – todos olharam para ele.
-Esteja à vontade, amigo – disse o poeta de cavanhaque.
-Estou feliz por estar aqui presenciando este momento de pura poesia. Também
gostaria de declamar uns versos.
-A praça é sua, companheiro! - disse um dos poetas.
E Artaud declamou os seguintes versos:
vejo uma estrela
cintilante passado
desde antes da história
e agora brilha em minha memória
que um dia a terra da Terra sorverá
e no entanto
num dia do futuro
em noites de estrelas
algum poeta contemplará
de pé na terra da minha terra
a estrela que preservei
e no final de um tempo efêmero
a nossa estrela se apagará
e não mais será estrela
e a Terra não mais será Terra
e no entanto
em outros mundos
outros olhos
guardarão na memória
o brilho do Sol
companheiro da Terra
Artaud foi aplaudido.
-Seja bem-vindo à plêiade, amigo – disse um dos poetas.
-Obrigado. É maravilhoso ver homens reunidos ao redor da poesia, se
aquecendo ao calor das palavras – disse Artaud.
Artaud saiu daquele bar com saudade dos poetas que conheceu no passado, dos
que conheceu naquele momento e dos que jamais conhecerá.
“A poesia é uma cosmonave circulando no tempo” - pensou Artaud.
Na manhã seguinte ele acordou bem cedo e preparou a mala. Breve deixaria
aquele lugar, talvez para sempre; no entanto um imprevisto mudaria o rumo da
história. O avião, um pequeno e velho bimotor, estava com defeito em um dos
motores e precisaria de mais um dia para o conserto. Artaud obteve a informação de
um funcionário ainda sonolento. Com pouco dinheiro, Artaud pegou a sua pequena
mala e resolveu ir para a praia, o único lugar que ainda se podia ficar sem gastar
dinheiro.
         PARAÍSO e CARPAS - 6° e 7° Capítulos do romance Caminhos de Artaud. Obra registrada no Escritório de Direitos Autorais da Biblioteca Nacional - Rio de Janeiro - Brasil - 2012
ANTONIO FERNANDO

Via Láctea Prostituta by POETAeATEU and GTA 5

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sexta-feira, 18 de julho de 2014

Eis o 5° capítulo ( NA TABERNA ) do romance CAMINHOS DE ARTAUD

Eis o 5° capítulo ( NA TABERNA ) do romance CAMINHOS DE ARTAUD

NA TABERNA
Numa construção em estilo rústico funcionava a Taberna da Lua. Certamente o
dono quis homenagear o esplendor da lua cheia sobre a enseada. Artaud abriu a porta
e ao fechá-la observou que o barulho do mar ficou amortecido. A luz do ambiente era
agradável, suave. Não havia ninguém por perto. Artaud caminhou em direção ao
balcão.
-Eh! Tem alguém aí?
Por uma porta ao lado do balcão saiu um velho esguio, usando uma velha boina
militar.
-Bom dia! - cumprimentou Artaud.
-Bom dia.
-Quero uma coisa simples para comer e um bom vinho – disse Artaud.
-Temos um guisado e um excelente vinho sulista.
-Está ótimo – disse Artaud.
-Você viu o navio encalhado? - perguntou o taberneiro.
-Sim, tirei algumas fotos.
-Você é fotógrafo?
-Amador. Gosto muito de fotografar. Estive dentro do navio quando o Vigílio
saiu para fazer uma refeição aqui. Você o conhece?
-Sim, conheço. É um bom homem. Ele foi protagonista de um triste episódio
ocorrido aqui na enseada. Há uns quinze anos atrás ele teve toda a família dizimada
por um assassino louco que apareceu por aqui. Vigílio estava no estaleiro quando
aconteceu a tragédia. A mulher e quatro filhos foram mortos por esse louco na casa
da enseada. Desde então a população passou a chamar este local de Enseada do
Homem Mau – contou o taberneiro.
-Ele parece ser um homem tão tranqüilo – disse Artaud.
-É só aparência, na verdade é um homem triste e intranqüilo.
-É compreensível – disse Artaud.
-Vou preparar a sua refeição.
Artaud então se dirigiu à uma mesa de frente para a janela, sentou e ficou
olhando a paisagem. “Um lugar assim não merecia esse nome” - pensou. Ao longe,
no alto do penhasco, o farol cumpria o seu papel de guardião.
Artaud desviou o olhar para o interior da taberna e começou a prestar atenção
nos detalhes do ambiente. Havia na parede, por trás do balcão, vários quadros com
fotografias do taberneiro em várias situações.
-Admirando as fotos?
-Sim, formam um painel interessante.
-É um pouco da minha vida militar.
-Você deve ter muitas histórias.
-Tenho sim, mas não quero contar. Ninguém está interessado em ouvir
histórias de um milico – disse o taberneiro.
-Depende da história, logicamente.
-A refeição está do seu agrado?
-Está muito boa, obrigado.
O taberneiro foi então para o balcão e ficou lustrando algumas canecas de
vinho.
-Por favor, mais uma caneca de vinho – pediu Artaud.
-Não demoro – disse o taberneiro dirigindo-se à barrica com uma caneca de
louça branca na mão.
Artaud voltou a observar a paisagem. “A enseada fica mais bonita no outono,
sem a presença dos frequentadores em férias no verão” - pensou ele.
-Aqui está o melhor vinho sulista! - exclamou o taberneiro pousando a caneca
com vinho sobre a mesa.
-É muito bom mesmo. E o assassino?
-Como!?
-Foi preso?
-A polícia não descobriu quem foi.
-Então um assassino louco praticou um crime perfeito – ironizou Artaud.
-É o que parece. Mas, em algum lugar ele deve ter deixado uma pista.
-Sim, é possível que sim – concordou Artaud.
-A conversa está boa, mas eu preciso ir para o balcão.
-É claro, fique à vontade.
Artaud ficou observando a enseada enquanto degustava cada gole de vinho. O
tempo parecia mudar rapidamente, pesadas nuvens cinzas cobriram o horizonte e
avançavam bem depressa.
-Há uma tempestade chegando – disse Artaud.
-Deve ser uma daquelas bem forte – disse o taberneiro.
-Logo hoje!
-De repente, uma das janelas se abriu com um estrondo, fazendo o vento frio
invadir o salão. O taberneiro correu para fechar a janela enquanto Artaud ingeria um
gole copioso de vinho. A chuva começou a cair em pingos grossos e espaçosos, para
logo em seguida desabar ruidosamente. Artaud olhou para o farol.
-A luz do farol não está acesa.
-Galileu não deve ter chegado a tempo, ou então está dormindo – observou o
taberneiro.
-E Vigílio pegando essa tempestade dentro de um navio encalhado.
-Isso é que é solidão.
-Como um homem pode ser tão sereno com uma vida tão trágica!?
-Talvez seja para não enlouquecer – disse o taberneiro.
-É... pode ser – disse Artaud pensativo.
O tempo fechou muito, fazendo a Enseada do Homem Mau ficar numa
penumbra forçada. Artaud olhou novamente para o farol, mas mal se via o seu
contorno envolto no temporal.
-O farol continua apagado. Galileu deve estar bebendo um bom café – disse
Artaud.
-É estranho, ele sempre acendeu o farol em tempestades até piores do que esta
– observou o taberneiro.
-Já não deve ter o mesmo vigor físico para subir depressa aquela escada.
-Galileu, apesar da idade, é um homem forte.
Subitamente a porta da taberna foi aberta fazendo entrar vento e chuva; um
homem com capa de chuva adentrou no recinto, ao abaixar o capuz o rosto
encrespado virou-se para o taberneiro.
“É o pescador” - lembrou Artaud.
-Que tempestade, amigo – disse o pescador.
-Espero que tenha protegido bem o seu barco – observou o taberneiro enquanto
apanhava uma garrafa de rum sobre o balcão.
-Ah! Sim, está bem atracado.
-Beba um rum, companheiro. Você está precisando – disse o taberneiro.
-Sim, estou mesmo. Preciso esquentar o corpo com uma boa bebida.
O pescador pegou o pequeno copo com rum, deu um trago e olhou para o
desconhecido.
-Eu conheço aquele homem – disse ele para o taberneiro.
-É um turista visitando a enseada.
-Da praia! É isso mesmo – lembrou o pescador.
Artaud, que acompanhava a movimentação do pescador, viu que era o alvo das
palavras.
-Pescador! Lembra-se de mim?
-Sim, da praia.
-Continua a ser um homem esperançoso?
-O pescador se alimenta de esperança, moço.
-O trabalho cria a circunstância – disse Artaud
-É preciso trabalho, esperança e sorte para se pegar um bom cardume – disse o
pescador.
-Ah! Ah! Vocês parecem dois tubarões dando voltas entorno de uma presa –
zombou o taberneiro enquanto preparava um rum para si mesmo.
-Pobre Galileu, não teve sorte – disse o pescador.
-Por quê? - perguntou o taberneiro.
-Pouco antes do temporal desabar eu vi um corpo caindo do alto do farol –
respondeu o pescador enquanto pedia, com um sinal de mão, mais rum ao taberneiro.
-Um acidente? - perguntou Artaud.
-Não creio, ele é, ou era, muito experiente – disse o pescador.
-Um assassinato? - perguntou o taberneiro.
-Talvez um suicídio – disse o pescador.
-Sim, um suicídio. Numa conversa comigo ele disse que se sua vida perdesse o
sentido ele seguiria o vôo da gaivota – lembrou Artaud.
-Balela, ele é um homem corajoso – disse o taberneiro.
-É preciso muita coragem para pular do alto de um farol – destacou Artaud.
-Ele ou não, o certo é que alguém caiu do farol – retrucou o pescador.
-Temos que averiguar – disse o taberneiro.
-Vamos esperar a chuva abrandar – disse Artaud enquanto olhava a chuva
batendo forte na vidraça da janela.
-Certamente. Vou preparar as lanternas, pois a noite pode nos pegar pelo
caminho – disse o taberneiro.
-Hoje os navegantes estarão desprotegidos – observou o pescador.
-A enseada ficará sem a sua referência principal – disse o taberneiro olhando
em direção do farol.
-Um farol sem luz é um monumento morto – disse o pescador.
-Há bilhões de vidas no planeta e no entanto a vida de cada um é única e rara,
não deveria ser desperdiçada – disse Artaud.
-Todo ser humano tem um lado misterioso e cruel. As vezes o lado cruel vence
o lado bom e tudo pode acontecer, do homicídio ao suicídio – disse o taberneiro.
-Um acidente. Certamente foi um acidente. O tempo fechou, ele correu para o
farol, começou a chover, ele subiu muito depressa a escada, escorregou e caiu nas
pedras do quebra-mar – argumentou Artaud.
-A chuva está diminuindo. Vamos! - exclamou o pescador.
-Podemos ir. Está tudo pronto. Você vai? - perguntou o taberneiro para Artaud.
-Sim, vou.
-Então vamos – disse o taberneiro enquanto dava uma lanterna e uma capa de
chuva à cada um.
O pescador abriu a porta deixando o ar frio penetrar no interior da taberna.
Cada homem colocou a sua capa de chuva.
-Vamos! - ordenou o taberneiro.
E todos saíram, sob uma chuva moderada, em direção a casa do farol. A subida
até o cume do penedo foi cansativa sob o peso da chuva. Quando chegaram na casa
perceberam que a porta e as janelas estavam fechadas. O taberneiro bateu na porta
três vezes e não houve resposta.
-Galileu! - gritou Artaud.
-Companheiros! Há uma porta aqui atrás, acho que está sem tranca – disse o
pescador.
Artaud e o taberneiro chegaram perto.
-Sim, está. Vamos entrar – disse o taberneiro.
Os homens adentraram na casa. O taberneiro foi o primeiro, depois foi o
pescador e finalmente Artaud. Dentro da casa tudo era rústico, inclusive a própria
estrutura da casa que em toda enseada era conhecida como a Casa do Farol.
Artaud foi até a cozinha e observou que sobre uma mesa havia um pedaço de
broa de milho e um bule com café.
“O café ainda está morno” - pensou Artaud quando encostou a mão no bule.
-Eh! Tem algo aqui na mesa da sala, parece uma carta. Por favor, esqueci meus
óculos na taberna – disse o taberneiro para os companheiros.
Artaud pegou a carta e foi para a claridade da janela.
Meus amigos de até agora. Sei que vou decepcioná-los
profundamente, mas não agüento mais viver com este peso
sobre mim. Fui eu quem matou a família do Vigílio.
Não quero o perdão de ninguém, pois não há justificativa
para o que eu fiz, talvez a loucura. Sim, fiquei louco! Mas
agora vou-me libertar voando do alto do farol.
Esqueçam que eu vivi.
Galileu
Artaud pendeu o braço com a carta na mão e olhou para o taberneiro.
-Não pode ser – disse perplexo o pescador.
-O que faremos? - perguntou o taberneiro.
-Vamos mostrar a carta ao Vigílio – disse Artaud.
-Coitado do homem – lastimou o pescador.
-Primeiro temos que ver se o corpo está preso as pedras – disse o taberneiro.
-Já devemos estar no crepúsculo – disse Artaud.
-A chuva agora é só uma garoa – observou o pescador.
-Depressa, vamos! Temos as lanternas – disse o taberneiro.
Os homens desceram o penhasco e foram para as pedras onde o mar quebrava.
Eles agora caminhavam sobre rochas com as suas respectivas lanternas acesas. A
noite chegava rapidamente.
-Companheiros! Nestas condições fica impossível encontrar o corpo – disse
Artaud.
-Tem razão. Daqui a pouco tudo ficará nas trevas – disse o taberneiro.
-Temos que falar com o Vigílio – disse o pescador.
-Vamos até o cargueiro – disse Artaud.
-Sim, vamos – concordou o taberneiro.
Os três homens então tomaram o caminho da praia em direção ao navio
encalhado. A chuva havia passado e o ar estava renovado, mas para aqueles homens
nada disso tinha importância. Cada um caminhava pensando no que dizer ao pobre
homem. Ao longe o navio parecia uma figura tétrica. Um ponto luminoso na ponte de
comando espelhava-se pelas águas da enseada.
Perto da embarcação os três homens percorreram o imenso casco com os seus
feixes luminosos.
-Vejam! A escada está pendente – observou Artaud.
-Vamos subir – sugeriu o pescador.
-Um momento! Primeiro vamos chamá-lo – disse o taberneiro.
-Vigíliooo! Vigíliooo! - chamou Artaud.
-VIGÍLIOOO! - gritou o pescador.
-Não adianta – disse o taberneiro.
-Deve estar dormindo um sono profundo – disse o pescador.
-Vamos! - ordenou Artaud segurando a escada.
Artaud subiu na frente, seguido pelo pescador e pelo taberneiro. Quando
pisaram no convés perceberam o quanto era grande aquele navio.
-Vigílio! - chamou Artaud.
-Vejam! - gritou o pescador apontando para um corpo caído sobre o convés.
-É o Vigílio? - perguntou o taberneiro.
Os homens se aproximaram. O taberneiro se agachou e virou levemente a
cabeça do corpo em sua direção.
-É ele mesmo, e está morto – disse o taberneiro.
-Morto!? - perguntou chocado Artaud.
-Sim, está morto – confirmou o pescador.
O taberneiro, com o auxílio da luz de sua lanterna, examinou com atenção o
cadáver.
-Não há sinais de violência – disse ele.
-Será que foi um acidente? - perguntou Artaud.
-Acho que não – disse o pescador.
-Suicídio? - perguntou Artaud.
-Não há sinal de envenenamento – disse o taberneiro.
-Alguém o matou – afirmou o pescador.
-Acho que foi um ataque fulminante do coração – disse o taberneiro.
-Seja lá como ocorreu, o fato é que ele está morto. E o que faremos agora? -
perguntou Artaud.
-Temos que avisar a família dele – disse o pescador.
-Homem! Vigílio não tinha mais ninguém. Vamos chamar a polícia – disse o
taberneiro.
-O que faremos com a carta? - perguntou o pescador.
Os homens entreolharam-se à procura de uma resposta.
“Eu deveria ter pego aquele maldito avião” - pensou Artaud voltando a olhar
para a cara do cadáver.
-Podemos entregá-la à polícia – disse o taberneiro.
-Ou queimá-la – proferiu Artaud.
-Não podemos queimar a prova do crime – disse o pescador.
-Podemos sim. O algoz e a vítima já não existem mais, viemos aqui para
entregar a carta ao Vigílio, mas o tempo foi curto para ele. Coitado, esteve tão perto
do assassino. Quanto a Galileu, o homem que orientava os navegantes, não conseguiu
orientar a própria vida. Devemos deixá-los em paz em suas tragédias – disse Artaud
segurando a carta.
-E a sociedade? - perguntou o taberneiro.
-Eles eram dois homens solitários. A sociedade não tem importância – disse o
pescador.
-Se queimarmos a carta o que diremos a polícia? - perguntou o taberneiro.
-Diremos que viemos fazer uma visita ao Vigílio – disse Artaud.
-Num dia de tempestade? - replicou o pescador.
É verdade. Não acreditarão na gente – disse o taberneiro.
-Diremos então a verdade, sem mencionar a carta. Afinal, é preciso encontrar o
corpo do Galileu – disse Artaud.
Por uns segundos o pescador e o taberneiro ficaram pensativos.
-Sendo assim, eu concordo – disse o taberneiro.
-Eu também – seguiu o pescador.
-Quem tem fogo? - perguntou Artaud.
-Eu – disse o taberneiro levando a mão ao bolso da calça e tirando um isqueiro.
Artaud pegou o isqueiro da mão do taberneiro e pôs fogo na missiva, deixando
que a chama a consumisse totalmente.
-É o fim – disse o pescador.
-Sim, talvez. Temos que avisar a polícia. Quem ficará aqui tomando conta do
cadáver? - perguntou o taberneiro.
-Eu fico – disse Artaud.
-Vamos pescador, avisar as autoridades – disse o taberneiro pousando a mão no
ombro dele.
Os dois homens partiram com suas lanternas iluminando a escuridão. Artaud
então se dirigiu para a cabine de comando iluminada por uma lâmpada. Ele procurava
algo que servisse para cobrir o cadáver quando uma folha de papel sob a garrafa
térmica chamou-lhe a atenção. Era uma carta de Galileu para Vigílio.
Amigo Vigílio, sei que quando terminar de ler estas
linhas não mais serás meu amigo, não importa, pois não
mais estarei entre os vivos. Preciso te confessar algo que
me atormenta há anos. Foi eu quem matou a sua família.
Não tenho explicação, a não ser a inveja, ou a loucura, ou
ambas. Não pedirei perdão, pois sei que não terei. Terei o
castigo que mereço.
Galileu
“Foi demais para o Vigílio, coitado, o coração não agüentou” - pensou Artaud
enquanto punha a carta no bolso e se dirigia ao convés. Consternado ele olhou para o
cadáver do Vigílio.
“A verdade é tão forte que as vezes até mata os combalidos” - pensou ele
enquanto cobria o cadáver com a sua capa de chuva.
Artaud sentiu o ar frio da noite que se iniciava. Sentia frio, mas estava feliz.
Porque o SENTIR era um indicativo de sua existência.
“Estou vivo, preciso ir embora” - pensou ele sentado em um banco, esperando
o desenrolar dos acontecimentos. O relaxamento fez com que adormecesse.
O céu estava azul e o dia lindamente cristalino. De repente, o avião entrou em
pane, o monomotor começou a perder altitude e Artaud não mais conseguiu controlálo.
O avião deu um rasante sobre a rua de uma pequena cidade, até que caiu e capotou
várias vezes até parar e começar a vazar combustível. Um desconhecido chegou,
acendeu um fósforo e o jogou no líquido que vazava. Artaud ainda ouviu o
desconhecido dizer: 'É melhor assim do que sobreviver a esse terrível acidente'.
Artaud viu o próprio corpo envolto pelas chamas e acordou desesperado. Ainda
gélido de pavor olhou para o cadáver estendido sobre o convés e percebeu o quanto o
próprio homem pode ser o seu pior inimigo.
A aurora já se fazia quando Artaud ouviu sons de buzina. Cansado pela longa
noite de espera, Artaud caminhou lentamente para a borda do convés e avistou um
carro escuro da polícia, saíram cinco homens do veículo, entre eles o taberneiro e o
pescador. O taberneiro trazia uma garrafa térmica entre as mãos.
-Bom dia, amigo – gritou o taberneiro para Artaud.
-Bom dia.
-Este é o investigador – disse o taberneiro apontando com as mãos, ainda
segurando a garrafa, para um homem gordo e de terno preto.
Os homens subiram para o convés, tendo o investigador que ser ajudado para
entrar a bordo.
-Deve ter sido uma noite horrível para o senhor – disse o investigador para
Artaud.
-Não mais do que o pesadelo que tive – disse Artaud enquanto recebia do
taberneiro a garrafa térmica.
-Beba o café enquanto ainda está quente – disse o taberneiro para Artaud.
-Obrigado, amigo. Estou precisando mesmo deste café.
-Lá está o corpo – apontou o pescador.
-Eu conheci aquele pobre homem. Era um homem com um triste passado –
disse o investigador.
-Um triste passado que a polícia não desvendou – disse Artaud.
-A polícia precisa de elementos para desvendar um crime – disse o
investigador.
-E também dedicação para isso – replicou Artaud.
-Fizemos o que estava ao nosso alcance – disse o investigador.
-Vamos ver o cadáver – disse o taberneiro segurando Artaud pelo braço.
Enquanto caminhavam Artaud abriu a garrafa, pôs o café na própria tampa e
sorveu o fumegante e já adoçado líquido.
O investigador agachou-se diante do cadáver e descobriu o corpo olhando-o
atentamente.
-Está parecendo uma morte natural, talvez um ataque do coração – disse o
investigador.
-O que faremos agora? - perguntou o pescador.
-O senhor tem alguma coisa a acrescentar além do que já foi dito pelos seus
amigos? - perguntou o investigador para Artaud.
-Não. Acho que os meus amigos já disseram tudo o que aconteceu. É preciso
achar logo o corpo do Galileu – disse Artaud.
-Já providenciei tudo. Uma equipe de busca já foi para o farol e o rabecão já
está chegando aqui – disse o investigador.
-E quanto a nós? - perguntou o taberneiro.
-Vocês estão liberados. Quanto ao senhor...
-Artaud.
-Sim, senhor Artaud, o senhor deve permanecer aqui na cidade pelo menos por
mais quatro dias.
-Quatro dias!?
-Sim, depois o senhor estará totalmente liberado.
-Mas... e a minha despesa no hotel? Eu já deveria ter partido – disse Artaud.
-Não posso liberá-lo antes; afinal, o senhor é um estranho, não é daqui.
Portanto, compreenderá a situação. Mas não se preocupe, é só uma situação de praxe.
-Eu compreendo, mas o meu bolso não – disse Artaud.
-Não se preocupe, amigo. Você pode ficar hospedado lá na minha taberna. Não
é um lugar apropriado mas tem um quartinho para visitas ocasionais perto da adega.
-Obrigado, amigo. Vou aceitar o convite, pois a diária do hotel está muito alta e
eu não tenho mais condições de pagá-la.
-Bom, já que está resolvido, vocês podem ir embora. Eu vou ficar aqui
esperando a perícia e o rabecão – disse o investigador.
Os três homens saíram do navio e foram caminhando pela praia em direção à
taberna.
-Está um belo dia para a pesca, mas hoje não vou pescar, estou muito cansado
– lamentou o pescador.
-Também não vou abrir a taberna.
-O que eu mais quero agora é descansar um pouco – disse Artaud.
“A carta! O que devo fazer?” - pensou Artaud enquanto apalpava a carta dentro
do bolso.
-Tchau! Vou ficar por aqui, mais tarde passo na taberna – disse o pescador
tomando o rumo da colônia de pescadores.
-Bom descanso, amigo – disse Artaud.
O taberneiro e Artaud continuaram a conversa pelo caminho.
-Artaud é o seu nome, certo?
-Certo. E o seu?
-O meu é Copérnico.
-Copérnico!?
-Sim. Não é um nome muito usual, não é?
-Mas então você é o irmão de Galileu?
-Sim, como soube?
-Ele mesmo me contou quando visitei o farol.
-Os nomes são uma herança de nosso pai, um homem muito culto.
-Que gostava muito de ciências.
-Sim, sobretudo astronomia.
-Eu sei, Galileu me falou. Eu também gosto muito de astronomia.
-Obrigado por ter queimado a carta. Se você não estivesse lá... eu certamente a
teria entregue à polícia.
-Talvez o maior mistério do universo seja a mente humana. O que ele fez foi
hediondo. Pensei no Vigílio, na dor que ele sentiria se...
-Se soubesse que foi o Galileu, não é?
-É.
-Não tenho explicação para o que ele fez – disse Copérnico.
-Cada cérebro é um mistério.
-Tudo ainda é muito primitivo – afirmou Copérnico.
-A nossa civilização precisa crer no que não existe para acreditar que é eterna.
E em cima dessa crença construiu-se um mundo de mentiras, opressões e crimes.
-Você é ateu?
-Sim.
-Eu também. Qual é a sua profissão? - perguntou Copérnico.
-Sou um escritor maldito e esquecido, pois só os escritores adoradores de
deuses é que são lembrados – disse Artaud.
-Por que você veio parar aqui?
-Estou fugindo.
-Fugindo!?
-Sim, fugindo da fogueira da inquisição.
-Mas está fogueira já não existe mais – disse Copérnico.
-Existe sim, só que ela é fria e chama-se DESPREZO.
-Você deve perseverar.
-A vida é trágica demais para conservar-se firme diante do desprezo – disse
Artaud.
-Este lugar também não lhe foi útil, não é?
-Todo lugar é inútil quando a futilidade impera. Não, não me foi útil, por isso
continuo a minha fuga – disse Artaud.
-Você procura a consagração? - perguntou Copérnico.
-Não. O sagrado e a fama são duas faces da mesma moeda. Procuro o
reconhecimento sincero.
-Mas então essa fuga não terá fim, pois nenhum lugar deste mundo é confiável.
-Deve haver algum lugar confiável, se não terei de construí-lo com a minha
pena – disse Artaud.
-Mas aí não será realidade e sim uma ficção.
-Ficção para formar corações e mentes. E aí, portanto, um lugar confiável.
-Essa sua fuga levará anos, talvez a sua própria vida. A raça humana não vale
nada – disse Copérnico.
-Eu sei, mas a minha fuga/procura continuará assim mesmo. Nós somos
homens bons e sinceros, somos a prova de que a humanidade não está totalmente
perdida.
-Terei que reconhecer o corpo de meu irmão e enterrá-lo com a sua loucura. Se
pudesse sairia desta galáxia e viveria a milhões de anos-luz daqui – disse Copérnico.
-Chegamos – avisou Artaud.
-Vou trocar de roupa, apanhar uns documentos e depois irei para o farol
acompanhar as buscas do corpo. Você pode ficar à vontade e descansar.
-Obrigado.
O quartinho tinha uma pequena janela que deixava entrar uma boa iluminação.
Artaud deitou na pequena cama e adormeceu sentindo um agradável aroma de vinho.
Quando acordou já passava do meio-dia. Foi até a cozinha e preparou um lanche.
“Preciso ir ao hotel pegar minhas coisas e fechar a conta” - pensou Artaud.
Através da vidraça, pintada com as palavras HOTEL PARAÍSO em azul,
Artaud avistou a mulher da estação no saguão. Trajava, com sensualidade, um vestido
vermelho.
“Certamente vai atender outro freguês” - pensou ele ao entrar no hotel.
Artaud, ao passar perto dela, recebeu um sorriso correspondido por ele. Em seu
quarto, enquanto arrumava as suas coisas na mala, ele ouviu um burburinho vindo do
lado de fora do hotel. Artaud deixou a mala sobre a cama e dirigiu-se para a janela.
Foi quando viu um corpo de mulher, trajando um vestido vermelho, no centro de um
círculo de curiosos.
-Não pode ser! - disse Artaud em voz alta.
Artaud saiu apressadamente do quarto, e quando passou pelo saguão um
recepcionista veio de encontro a ele.
-Senhor, aconteceu uma desgraça. Uma mulher subiu até o terraço e pulou de
lá! Teve morte instantânea.
Artaud não falou nada, foi para a frente do hotel e abriu caminho por entre as
pessoas que estavam na calçada até chegar ao corpo estendido no chão com um filete
de sangue escorrendo da boca.
“Finalmente ela conseguiu o que queria. Dessa vez não pude ajudá-la; eu
deveria ter parado no saguão e conversado com ela” - pensou ele lamentado-se pelo o
que não fez.
Artaud voltou para o hotel decidido a ir embora o mais depressa possível.
Pegou a mala, mas a noite já caía e ele desistiu.
“Amanhã, bem cedo, partirei” - pensou ele enquanto deitava na cama com o
traje de sair e sem tirar os sapatos.
-Preciso avisar... - disse ele em voz alta.
Artaud pegou uma folha de papel e começou a escrever um bilhete para o
Copérnico.
Partirei para bem longe daqui. Obrigado por tudo.
Deixo-lhe a carta do Galileu, que encontrei no navio, para
o Vigílio. Abraço. Artaud
Artaud apanhou a carta que estava em seu bolso e a pôs num envelope junto
com o bilhete. No envelope escreveu: “Para Copérnico – Taberna da Lua – Enseada
do Homem Mau”.
De manhã, bem cedinho, Artaud deixou o hotel. Ao passar por uma caixa do
correio pôs o envelope e seguiu direto para o aeroporto.
A névoa da manhã ainda cobria o pequeno aeroporto quando Artaud chegou já
com a passagem na mão. No pequeno saguão sentou-se num banco, com a pequena
mala ao seu lado, esperando a hora do embarque.
Um pequeno grupo de pessoas sentadas em dois longos bancos, um de frente
para o outro, entreolhavam-se discretamente, algumas liam os jornais do dia.
De repente, uma voz feminina anunciou pelo alto-falante: -Passageiros com
destino a Esperança, por favor dirijam-se ao portão de EMBARQUE.
Artaud caminhou até a saída e avistou o velho bimotor parado a poucos metros
dali, deu mais uns três passos e...
-O filme! Esqueci o filme! - exclamou em voz baixa.
Por uns segundos Artaud hesitou entre pegar o avião e voltar para o hotel.
“Lá estão as belas imagens do navio encalhado” - pensou ele.
Mas... o mais importante acabou sendo o caminho da liberdade.
“As fotos eu buscarei em outro lugar” - pensou ele.
E assim Artaud embarcou naquele pequeno avião.
-Onde fica a cidade de nosso destino? - perguntou Artaud à simpática
comissária de bordo.
-Ao sul. O sol estará sempre ao seu lado esquerdo – respondeu a comissária.
-Está fazendo um belo dia para voar, não é mesmo?
-Sim, está um dia bonito – e se dirigindo à todos ela disse: -Por favor,
coloquem os cintos, tenham uma boa viagem e um excelente dia.
Artaud então pôs a mão em seu braço.
-Escolhi um ótimo lugar, não é?
-Sim, é um ótimo lugar – disse ela com um sorriso nos lábios.
A comissária então sentou-se na poltrona anterior à de Artaud.
-Boa viagem comissária – disse Artaud.
-Obrigada, cavalheiro.
Em minutos o avião decolou do pequeno aeroporto daquele lugar chamado
Paraíso. Artaud olhou para baixo e viu a Enseada do Homem Mau reluzente sob o
sol. O navio encalhado se destacava na paisagem.
O avião voava normalmente rumo ao sul quando de repente houve uma forte
vibração. Artaud viu quando a comissária levantou-se e foi rapidamente para a cabine
do piloto. Não demorou muito e a mulher abriu a porta, estava pálida e demonstrava
grande preocupação, olhou para Artaud e não deu nenhum sorriso como de costume.
Artaud voltou-se para a janela e viu que o sol não estava lá.
“Há algo errado, o avião desviou da rota” - pensou ele.
Foi então que observou o sol ao seu lado direito.
“Estamos indo para o norte!” - pensou.
-Aconteceu algo de errado, não é? - perguntou ele à comissária.
Sim, o motor do lado direito está com problemas.
-É muito grave?
-Parece que sim.
Artaud olhou para aqueles rostos desconhecidos e sentiu uma profunda
angústia.
“Que maneira estúpida de morrer” - pensou ele.
De repente, houve uma grande vibração seguida pelo som de uma explosão.
Artaud olhou para a janela do outro lado e viu uma grande quantidade de fumaça
saindo do motor da asa direita. O avião começou a perder altitude. Da sua janela
Artaud viu a enseada se aproximando rapidamente. A comissária levantou-se da
poltrona e foi para a cabine. Voltou logo em seguida, estava mais pálida do que antes.
-Senhores passageiros, vamos ter que fazer um pouso de emergência. Por
favor, coloquem os cintos – disse a comissária.
-Estamos caindo! - gritou um passageiro abraçando os joelhos.
-Pai nosso... - começou a rezar uma passageira idosa.
Artaud observou como as pessoas nos momentos trágicos tentam de algum
modo segurar-se à uma tábua de salvação, mesmo que essa tábua não exista.
“Agora é esperar pela destreza do piloto aliviando o impacto” - pensou Artaud.
O rosto da comissária estava tenso. Tudo se movimentava rápido. De repente, o
mundo girou e Artaud sentiu como se estivesse sendo lançado para o alto, amarrado a
algo sem controle, por uns segundos tudo ficou escuro. Quando se deu por si estava
em meio às ferragens, corpos quebrados, e diante dele o rosto da comissária com um
filete de sangue escorrendo da testa, ela parecia estar sorrindo diante da morte.
Artaud olhou para si próprio, mexeu as mãos e observou um corte no seu braço
esquerdo. Desatou o cinto e saiu por um buraco aberto na fuselagem. Tudo estava
retorcido e fumegante. Artaud andou alguns metros, sentou no chão e como um

náufrago observou ao longe o farol da enseada do lugar que teimava em prendê-lo.

NA TABERNA - 5° Capítulo do romance Caminhos de Artaud. Obra registrada no Escritório de Direitos Autorais da Biblioteca Nacional - Rio de Janeiro - Brasil - 2012
ANTONIO FERNANDO