Eis o 6° e 7° capítulos do meu livro Caminhos de Artaud
PARAÍSO
De volta ao hotel, Artaud pediu para ficar no mesmo quarto. Para a sua
surpresa, lá estava o filme no fundo da última gaveta da cômoda.
ACIDENTE AÉREO EM PARAÍSO MATA 6 E FERE 4
Artaud leu a principal manchete do jornal pendurado na banca, pagou um
exemplar e saiu lendo o diário. Numa manchete menor estava escrito: ACHADO O
CORPO DO FAROLEIRO. Artaud dobrou o jornal, colocou debaixo do braço e ficou
observando os pombos.
Preso pela casualidade e com vários pontos no braço, Artaud começou a
refletir: “Como a vida é grande e diversificada. Quantas formas de vidas num planeta
tão pequenino, perdido na imensidão de uma galáxia entre bilhões de outras. Quantas
vidas inteligentes o Universo guarda; e a prova mais concreta de que existe vida no
Universo somos nós mesmos! O cego não precisa enxergar pra saber que a luz existe.
As imensas distâncias ainda não permitiram um contato, mas isso não impede que
saibamos que a vida se espalha pelo Universo. Só na nossa galáxia são mais de
duzentos bilhões de estrelas. Multiplicando todas essas estrelas por bilhões de
galáxias teremos uma infinidade de planetas com uma infinidade de formas de vida.
É Artaud... definitivamente não estamos sós no Universo”. De repente, uma revoada
de pombos encheu o espaço.
De volta ao hotel, pegou os originais de seu romance inacabado, folheou
algumas laudas tentando achar uma nova inspiração, mas nada de literatura veio em
sua mente ocupada com as imagens fragmentadas do acidente. Artaud foi até a janela
e inspirou fundo o ar fresco daquele dia.
“Vou pegar o avião daqui a três dias, e em Esperança darei um novo rumo em
minha vida” - pensou Artaud observando o arrebol do pôr do sol.
O sol nasceu radioso por sobre as montanhas de Paraíso naquele primeiro dia
dos três que Artaud deu a si mesmo. A Enseada do Homem Mau estava calma e
luzente, o farol era uma imagem de cartão postal e o navio encalhado não mais fazia
parte da paisagem daquele lugar. Artaud era um estranho, num lugar estranho, com
pessoas estranhas. Um homem pode conhecer todos os lugares, mas todos os lugares
não podem conhecer um homem. Aquele lugar não conhecia Artaud, mas Artaud
conhecia bem aquele lugar, parecido com tantos outros que conhecera. Afinal,
exploradores e explorados convivem em todo lugar. A crueldade do mundo nunca
tirou de Artaud a vontade de descobrir outros lugares, mesmo sendo esses lugares de
um mesmo lugar.
CARPAS
Além da Enseada do Homem Mau havia um casarão chamado A Casa dos
Poetas Malditos. Artaud, naquele dia de luminosidade e temperatura agradáveis,
resolveu que deveria conhecer aquele lugar. O casarão ficava numa alameda com
árvores frutíferas, de uma grande variedades de cores em suas ramagens. Artaud
tocou a campainha, não demorou muito apareceu um homem de baixa estatura e
fisionomia oriental.
-Bom dia! - cumprimentou o homem.
-Bom dia. Meu nome é Artaud, sou escritor e gostaria de conhecer a Casa. Vim
de longe e estou de passagem.
-Hoje não temos reunião, mas posso mostrar a Casa. Por favor, entre. Meu
nome é Shimamura.
-Obrigado, Shimamura.
Artaud entrou e logo reparou que estava num bonito e bem cuidado jardim.
Havia um lago ornamental com vários peixes.
-Que peixes lindos! - observou Artaud.
-Sim, são carpas. Você certamente já viu outras em outros lugares, eu presumo.
-Certamente, mas estas daqui tem um colorido que não tinha visto ainda- disse
Artaud.
-As carpas são originárias da antiga Pérsia e na antiguidade foram levadas para
o extremo oriente. Foi no século XIX, no oriente, que surgiram as carpas coloridas
para fins ornamentais. Elas podem viver 70 anos, mas há relatos de carpas que
viveram mais de 200 anos!
-É fantástico! Como um peixe ornamental pode viver tanto? - perguntou
Artaud.
-São peixes resistentes. Agüentam bem as variações de temperatura.
Shimamura levou Artaud para uma sala com uma decoração simples, tendo nas
paredes fotografias de escritores famosos e não famosos.
-Você é poeta? - perguntou Shimamura.
-Sim, e também prosador.
-A prosa exige muito trabalho – disse Shimamura.
-E a poesia um tempo para a decantação.
-A poesia é o sangue da literatura – disse Shimamura.
-Veja as carpas, cada uma é como se fosse um poema de uma poesia quase
perfeita – disse Artaud.
-Gostaria de viver duzentos anos como elas – disse Shimamura.
-A nossa obra viverá. Quem é ele? - perguntou Artaud enquanto olhava a
fotografia de um jovem poeta.
-Chamava-se Lomba. Morreu muito moço. Colocava seus poemas em grandes
painéis feitos por ele mesmo, e depois cobria as paredes da universidade local com
eles.
-O que nos move é saber que a poesia é eterna – disse Artaud.
-A poesia viaja por entre as galáxias – disse Shimamura.
-Em qualquer parte do Universo, onde houver vida inteligente, a poesia estará
presente – disse Artaud enquanto apontava para outra foto.
-Quem é esse?
-É Anton, fisicamente ele despertava muita curiosidade por não possuir a
mandíbula. Há muitas histórias sobre ele, mas uma coisa é certa, era um autêntico
poeta maldito – disse Shimamura.
-Está vivo? - perguntou Artaud.
-Ninguém sabe. Ele simplesmente desapareceu. Veja aqui um poema dele.
Artaud pegou a folha de papel e leu em voz alta.
-Como uma agulha em brasa
fino aço incandescente
perfurante
a poesia deve ser assim
candente
para cauterizar as feridas
de uma sociedade doente
Artaud passou a folha para Shimamura e sentou numa cadeira.
-Parece que fiz esse poema – disse Artaud.
-Por isso somos malditos! Damos à poesia um sentido maior. Bem-vindo à
nossa Casa, amigo.
-Obrigado, Shimamura. Mas devo ser, primeiramente, apresentado aos demais
membros da Casa.
-Mas você já foi apresentado, estão todos aqui – e Shimamura apontou para as
fotografias nas paredes e sobre os móveis.
-Você é o único membro da Casa? - perguntou Artaud.
-Não. Agora somos eu, você e eles. Já é um bom começo, não é?
Artaud não ficou de todo decepcionado, pois aquele homem não estava louco,
estava apenas trabalhando com fervor poético. A Casa dos Poetas Malditos existia e
tinha o seu guardião.
-Por favor, escreva aqui um poema seu – pediu Shimamura a Artaud
estendendo-lhe uma folha de papel. Artaud pegou a folha e escreveu:
Que a poesia seja um lindo arrebol
nos dois lados do mundo
de uma Terra comum
perdida nos arredores do infinito
Neste pequenino planeta
o ser que ondula o espelho d'água
com um pingo de tinta
descobre que o finito da vida
é uma quimera no cosmos
Aqui nenhum homem é estranho
quando da borda da galáxia
na fronteira do dia e da noite
contempla o céu num ato de rebeldia
-Agora preciso ir, partirei daqui a dois dias – disse Artaud.
-Um momento – disse Shimamura caminhando para uma sala ao lado.
Minutos depois, Shimamura reapareceu trazendo uma máquina fotográfica.
-Permita-me que tire uma foto sua?
-Sim, pode fotografar. É uma bela máquina.
-É uma velha e boa Leica.
-Essas são as melhores – disse Artaud.
-Você também gosta de fotografar?
-Sim, também sou fotógrafo.
-É uma arte fascinante – disse Shimamura.
-Bom, pode fotografar.
Depois que tirou a foto, Shimamura leu o poema de Artaud em voz alta.
-Sim, é isso mesmo! Colocarei este poema na entrada da Casa, com a sua
permissão.
-Esteja à vontade. Agora preciso ir. Tchau, amigo.
-Aqui está o endereço para correspondência – disse Shimamura entregando a
Artaud um cartão.
-Até breve.
-Até breve – repetiu Shimamura.
E Artaud saiu da casarão com a certeza de que não mais voltaria aquele lugar.
De volta à rua sentiu os pontos apertando a carne do seu braço, não era uma sensação
ruim, era até agradável.
“A ferida está cicatrizando bem” - pensou ele.
A cada passada que dava, Artaud tentava alcançar o futuro em seus
pensamentos.
“O ar que eu respiro um dia os senhores do dinheiro e do mal darão um preço a
ele. Será cobrado um imposto, quanto maior o consumo de oxigênio maior será o
imposto. Quem fizer caminhadas, trabalho ao ar livre, exercícios físicos ou esportes,
pagarão uma taxa extra. Será decretado em todos os países o 'imposto sobre o ar
consumido'. Os pescadores pagarão a taxa extra. É Artaud... parece absurdo, mas há
séculos passados quem falasse que no futuro distante a água poderia ser cobrada,
seria chamado de louco. E no entanto, neste futuro do passado, a água que bebemos é
cobrada. Não Artaud! Tudo é possível sob o domínio do capital...”
-Puta que pariu! - xingou Artaud após dar um tropeção numa pedra,
interrompendo bruscamente as suas lucubrações.
Quando Artaud deu por si estava numa rua com casas de alvenaria maltratadas
pelo tempo.
“Os pobres são iguais em qualquer parte do mundo” - pensou ele enquanto
observava os imensos e alvos lençóis pendurados nos varais, inflados ao sabor do
vento, e as crianças brincando nos quintais.
Num dos quintais uma velha, com os cabelos totalmente brancos, estendia
roupas num varal. Artaud lembrou de sua mãe, em algum lugar distante no tempo,
fazendo o mesmo trabalho.
O fim da rua dava para uma praia do lado oposto à Enseada do Homem Mau.
Uma placa, colocada num poste, indicava: Praia do Amor. Artaud foi para a areia,
tirou os sapatos, arregaçou as pernas da calça e, como há muito tempo não fazia,
começou a correr à beira-mar. Correu até cair de costas na areia, ofegante e
extenuado. Sentiu-se como um menino, como aquele que foi na infância. O braço
latejava, mas Artaud não deu importância, afinal estava vivo e a vida é toda feita de
latejo. Assim ele ficou, deitado na areia, observando a lenta movimentação das
nuvens brancas, em forma de flocos, sob um lindo fundo azul.
“Além daquele azul, muito além, a única verdade universal é a da matemática”
- refletiu Artaud.
-Levanta Artaud! Vamos caminhar porque a vida é muito curta para um
universo infinitamente eterno – disse ele em voz alta.
Na Praia do Amor um trinado profundo de um pássaro, cortando o espaço
diante dele, ficou gravado em sua mente. Artaud olhou admirado para aquela ave e
pensou, com tristeza, na bestialidade humana que destrói tudo e todos.
“Artaud, não se esqueça que o pior inimigo do homem é o próprio homem. O
homem já matou mais semelhantes do que todas as pestes juntas. A grande desgraça
do homem é, e será, o próprio homem” - pensou ele.
O que esperar de uma sociedade extremamente desigual, injusta,
preconceituosa e egoísta, onde uma pequena elite, uma das mais cruéis do mundo,
domina tudo, fazendo dos meios de comunicações de massas um importante
instrumento de opressão. Artaud estava farto daquele lugar, daquele país. Naquele
frio, triste e solitário quarto de hotel, Artaud adormeceu pensando na infelicidade do
mundo.
O dia amanheceu com nevoeiro. Artaud acordou de frente para esse quadro
quase morto e sentiu uma profunda necessidade de ir ao encontro da natureza.
Através da bruma da manhã Artaud viu algo bastante grande, talvez um barco
tombado na areia. Ele correu em direção daquilo que suspeitava ser um barco.
Quando chegou perto ficou surpreso, o barco não era barco mas uma imensa baleia
encalhada, e para o seu espanto o animal estava vivo. Artaud ficou parado diante
daquela baleia sem saber o que fazer.
O nevoeiro se dissipou rápido, agora era possível ver claramente o imenso
animal brilhando sob os primeiros raios da luz da manhã. Da Taberna da Lua
Copérnico viu o imenso animal encalhado na praia e rapidamente pegou um
sinalizador, especialmente guardado para uma situação de emergência, e acionou o
disparador. O foguete fez uma trajetória luminosa sobre a praia da enseada. Na
colônia o pescador e seus companheiros viram o clarão.
-Vejam, companheiros! O Copérnico lançou o sinalizador.
-Estamos vendo. Aconteceu alguma coisa – disse um dos pescadores.
-Vamos pra lá! - disse o pescador.
-Sim, vamos.
O vento soprava forte sobre a Enseada do Homem Mau e Artaud, fascinado
diante do imenso animal, nem deu importância quando uma rajada de vento levou o
chapéu de sua cabeça.
Os homens chegaram perto da baleia.
-Ela está viva, temos que salvá-la! – disse Artaud.
-Que animal estupendo! - exclamou o pescador.
-Já vi muitas delas, mas só em alto mar – comentou um dos pescadores.
-Temos que agir logo – disse Copérnico.
-Cordas! - gritou um pescador.
-Sim, é isso. Vamos amarrá-la e puxá-la para o mar – disse Copérnico.
-É macho ou fêmea? - perguntou um dos pescadores.
-Não sei – disse Copérnico.
-É uma fêmea – respondeu o pescador.
-É a época da reprodução. Elas procuram as águas mornas – disse Artaud.
Os homens se reuniram e começaram a traçar um plano para o desencalhe do
animal.
-Sugiro que amarremos o animal pelas nadadeiras e pela cauda, e puxemos
com os nossos barcos – opinou o pescador.
-Então vamos buscar os barcos! – disse Copérnico.
Um grupo saiu para buscar os barcos. A comunidade chegou trazendo baldes.
Logo se formou uma imensa fila de homens, mulheres e crianças. Os baldes com
água foram passando de mãos em mãos para que todos, em volta do animal, jogassem
água no imenso corpo. Todos já não estavam admirando o animal, mas trabalhando
para ajudá-lo.
O barco do pescador foi o primeiro a chegar, logo em seguida chegaram mais
dois barcos. Todos ficaram perto da arrebentação. Os homens, na praia, começaram a
amarrar a baleia com as cordas, os que sabiam nadar entraram no mar levando as
cordas. Artaud ficou na areia, ele não sabia nadar.
Foi preciso muito esforço para passar pela arrebentação. Quando os homens
chegaram aos barcos amarraram as cordas. Os motores foram ligados, as cordas logo
ficaram tensas à medida que as rotações dos motores aumentavam, mas a baleia não
se movia. De repente, uma das cordas arrebentou e um dos pescadores de um dos
barcos caiu ao mar... mas voltou nadando. Os pescadores fizeram uma nova tentativa,
mas o animal de várias toneladas não se mexeu.
-É preciso arrumar uma embarcação maior – disse Artaud.
-Uma embarcação maior levaria mais tempo para chegar aqui – disse um
pescador.
Enquanto os homens confabulavam, as crianças passavam as mãos na baleia,
acariciando o animal. Dentro de seu barco o pescador, sempre atento, observou que
um navio passava ao largo. Era preciso agir rápido, o pescador foi até a popa, pegou
três sinalizadores e disparou um por um. Na praia as pessoas olharam os clarões no
céu e logo em seguida, para surpresa de todos, um sinalizador foi lançado do navio.
Era o sinal que o pescador queria. Os homens perceberam que o navio mudara de
rumo e estava vindo em direção deles. Todos na praia ficaram eufóricos.
-Eles perceberam do que se trata, devem estar vendo tudo com binóculos –
disse Artaud para um pescador ao lado.
O pequeno barco do pescador foi ao encontro do gigante que se aproximava.
Da praia um homem apontou um binóculo na direção do navio.
-É o Hércules! - gritou o homem.
-Só um Hércules para tirar esse animal daqui – disse um pescador.
-É o mesmo navio que esteve encalhado aqui? - perguntou Artaud.
-Sim, é ele mesmo. Veja você mesmo – disse o homem entregando o binóculo
a Artaud.
Artaud apontou o binóculo para o navio e viu o nome Hércules gravado na
proa.
-É ele mesmo, conheço bem aquele navio – disse Artaud.
O pequeno barco do pescador chegou perto do navio.
Eh! Comandante! Precisamos de ajuda para salvar a baleia! – gritou o
pescador.
-Lançaremos um cabo com um laço na ponta, coloquem o laço na cauda do
animal. Quando a baleia estiver na água afrouxem o mecanismo de apertar.
Entenderam? - falou o Comandante através de um megafone.
-Sim, Comandante! - respondeu o pescador.
Os marinheiros lançaram o cabo e o pescador, logo na primeira tentativa,
conseguiu pegá-lo.
-Vamos companheiros! A baleia nos espera – disse o pescador.
O barco do pescador fez meia volta e se dirigiu para a praia.
-Vejam! Estão trazendo um cabo! - gritou um pescador.
-Dessa vez eles vão conseguir – disse uma mulher com os cabelos negros
esvoaçando ao vento.
O pescador pulou do barco trazendo o cabo. Os homens que estavam na praia
correram para ajudá-lo.
-Vamos! Depressa! - gritou um pescador.
-Vamos colocar o laço na cauda – orientou o pescador.
Artaud, Copérnico e dois pescadores correram para colocar o laço na cauda da
baleia. Era preciso escavar por baixo da cauda do animal para passar a ponta do laço.
Os homens começaram a escavar pelos dois lados até completar a passagem para o
cabo. Juntaram as duas extremidades e fecharam o mecanismo de apertar o laço.
-Pronto! - gritou Artaud.
O pescador, dentro de seu barco, acenou para o navio. Em resposta o navio
saltou um longo apito e começou a puxar a baleia. O imenso animal começou a se
mover em direção ao mar. O cabo estava em sua tensão máxima. Aos poucos o
animal foi entrando no mar até ficar coberto pela água. Todos deram um Viva!! Mas,
o trabalho ainda não estava completo. Era preciso um ato de coragem para a
libertação total do animal.
A baleia estava cansada, por uns segundos pareceu que não ia reagir, mas, de
repente, ela saltou um esguicho e todos aplaudiram!
-O cabo! - alguém lembrou.
-Deixa comigo!
E Copérnico mergulhou no mar em direção à baleia. Ele era um homem forte e
um excelente nadador. Copérnico conseguiu chegar até a cauda e destravar o
mecanismo do laço, o animal ficou totalmente livre. A baleia tomou distância e deu
um lindo mergulho, mostrando toda a sua imensa cauda. Todos ficaram com uma
sensação de alívio, até que alguém gritou:
-Onde está o Copérnico!?
A mulher de cabelos negros saiu gritando pela praia.
-Copérnico! Copérnico!
Nada. Todos pararam. A alegria nos rostos agora era apreensão.
-A correnteza levou ele para o fundo. Não consigo vê-lo! - gritou o pescador
em seu barco.
Artaud ficou esquadrinhando o mar, mas tudo o que viu foi a baleia, ao longe,
dando um esguicho e desaparecendo sob as águas. As pessoas, agora tristes,
começaram a sair da praia. Algumas mulheres choravam e as crianças só falavam da
baleia. Naquela noite a lanterna da Taberna da Lua não ficou acesa e a enseada, desde
então, não seria mais a mesma.
No final da tarde, Artaud foi para o alto do penhasco do farol. Afinal, o pôr do
sol visto daquele lugar era um dos mais belos. Ele sentou sobre uma pedra e ficou
pensando sobre a vida.
“Tão curta e tão bela, tão desvalorizada pela raça humana e por todos que
detêm o poder de alguma forma. Mas no meio de tanto egoísmo ainda há alguma
solidariedade entre os homens de bem. Hoje um homem morreu para salvar uma
baleia, num gesto de puro heroísmo, num lugar conhecido pela maldade de outro
homem. Um ato de coragem frente a bestialidade”.
Artaud desceu do penhasco sentindo o peso das estrelas no firmamento. Num
bar de esquina, onde habitualmente reuniam-se poetas e vagabundos errantes, Artaud
sentou-se à uma mesa, pediu uma cerveja e ficou observando a movimentação das
pessoas de uma mesa ao lado. Eram pessoas alegres e logo Artaud sentiu que havia
algo em comum a uní-los. Um dos poetas, quase todos eram poetas, levantou-se da
cadeira e proferiu o seguinte poema:
sussurra um nome de mulher
saboreando gomos de tangerina
com raios de sol
afaga a terra ardente
como faz com o sexo em flor
da mulher amada
faz do verso uma lâmina
mais cortante que o fio da navalha
toca em estrelas no firmamento
brinca como uma criança
e embarca na esperança
beija os olhos da amada
olha o mundo novo
e faz um poema de amor
Todos os presentes aclamaram o poeta, até que outro levantou-se e declamou
outro poema.
Eu, caçador de relâmpagos,
indomável,
carrego em meus olhos
raios de fogo
infinitamente fugaz
Eu, que busco aprisionar
a beleza do mundo
solto a beleza do amor
que sinto e compartilho
com a minha amada
Muito bem!! Todos aplaudiram. Artaud, que observava com a maior atenção,
levantou e pediu a palavra.
-Por favor, gostaria de dizer algo – todos olharam para ele.
-Esteja à vontade, amigo – disse o poeta de cavanhaque.
-Estou feliz por estar aqui presenciando este momento de pura poesia. Também
gostaria de declamar uns versos.
-A praça é sua, companheiro! - disse um dos poetas.
E Artaud declamou os seguintes versos:
vejo uma estrela
cintilante passado
desde antes da história
e agora brilha em minha memória
que um dia a terra da Terra sorverá
e no entanto
num dia do futuro
em noites de estrelas
algum poeta contemplará
de pé na terra da minha terra
a estrela que preservei
e no final de um tempo efêmero
a nossa estrela se apagará
e não mais será estrela
e a Terra não mais será Terra
e no entanto
em outros mundos
outros olhos
guardarão na memória
o brilho do Sol
companheiro da Terra
Artaud foi aplaudido.
-Seja bem-vindo à plêiade, amigo – disse um dos poetas.
-Obrigado. É maravilhoso ver homens reunidos ao redor da poesia, se
aquecendo ao calor das palavras – disse Artaud.
Artaud saiu daquele bar com saudade dos poetas que conheceu no passado, dos
que conheceu naquele momento e dos que jamais conhecerá.
“A poesia é uma cosmonave circulando no tempo” - pensou Artaud.
Na manhã seguinte ele acordou bem cedo e preparou a mala. Breve deixaria
aquele lugar, talvez para sempre; no entanto um imprevisto mudaria o rumo da
história. O avião, um pequeno e velho bimotor, estava com defeito em um dos
motores e precisaria de mais um dia para o conserto. Artaud obteve a informação de
um funcionário ainda sonolento. Com pouco dinheiro, Artaud pegou a sua pequena
mala e resolveu ir para a praia, o único lugar que ainda se podia ficar sem gastar
dinheiro.
PARAÍSO e CARPAS - 6° e 7° Capítulos do romance Caminhos de Artaud. Obra registrada no Escritório de Direitos Autorais da Biblioteca Nacional - Rio de Janeiro - Brasil - 2012
ANTONIO FERNANDO