SUJEITO HOMEM

SUJEITO HOMEM

sábado, 12 de julho de 2014

Eis o 4° Capítulo do romance CAMINHOS DE ARTAUD

Eis o 4° Capítulo do romance CAMINHOS DE ARTAUD

NA ENSEADA
Ele caminhava envolto pela neblina. Nada se via, tudo se ouvia; o barulho do
motor, o trinado das gaivotas e o barulho das ondas quebrando perto. O cheiro do mar
entrava-lhe pelas narinas e tocava-lhe os pulmões. Na neblina intensa era fácil perder
o rumo, mas ele sabia que o mar estava ao seu lado esquerdo. O sol nasceu em luz
difusa, cinza. Ele sabia que o cargueiro estava ali, em algum lugar. De repente, o
barulho de motor aumentou e ele viu a silhueta de um barco flutuando na fumaça fria.
“São pescadores indo para as águas mais profundas” - pensou ele
Artaud queria pescar aquela imagem do navio encalhado. Era um desejo que
nutria desde jovem, e ele agora tinha consciência de que os desejos não morrem.
O nevoeiro foi dissipando-se no panorama da manhã fria. Artaud, atento,
avistou a imensa silhueta de um gigante inclinado na areia, era o navio inerte, frio
metal encalhado numa praia que não era o seu destino. Ao fotógrafo Artaud só
interessava capturar a estética de um gigante morto.
O dia abriu e o sol jogou sua luz laranja pelo estibordo do grande navio, podiase
ver claramente o nome Hércules na proa, e uma bandeira indecifrável na popa.
Artaud procurava os melhores ângulos. Chegou bem perto e sentiu o quanto era
pequeno diante do gigante. Afastou-se, caminhou até tomar distância e então
começou a fotografar de vários ângulos. Artaud, depois de fotografá-lo, sentou-se na
areia perto do navio. “Quantas viagens, quantos portos, quantas tempestades e
calmarias. Agora estava ali, parado num imenso banco de areia, esperando a
definição dos homens” - pensou Artaud.
Ele observava as gaivotas pousadas na mureta do tombadilho quando,
subitamente, levantaram vôo e surgiu um homem sonolento.
-Bom dia, amigo! - gritou Artaud.
-Bom dia.
-Onde está a tripulação?
-Estão salvos em algum hotel.
-Você é o vigia?
-Sim, sou.
-De onde é esse navio?
-Não sei. Pegou uma tempestade, teve problema nas máquinas e deu no que
deu!
O vigia então jogou uma escada de cordas e começou a descer enquanto falava.
-Preciso ir até a Taberna da Lua tomar algo quente e comer uma broa de milho.
Não deixaram nada dentro do navio para se comer. O senhor poderia fazer um favor?
-Se for do meu alcance – disse Artaud.
O vigia pôs os pés na areia e estendeu a mão.
-O meu nome é Vigílio.
-O meu é Artaud.
-Muito prazer.
-Igualmente. Em que posso ajudar?
-O senhor pode tomar conta do navio pra mim?
-Eu!?
-Sim. Só por uma hora, mais ou menos. A praia está deserta, não haverá muita
gente por aqui. Falando nisso, como o senhor veio parar aqui tão cedo?
-Escutei a notícia do acidente pelo rádio. Vim durante o nascer do sol para
aproveitar os primeiros raios da manhã, mas o nevoeiro estava muito denso.
-Então o senhor pode fazer esse favor?
-Posso.
-Se quiser pode subir. A vista lá de cima é muito bonita.
Assim que Vigílio tomou o rumo da taberna, Artaud subiu. Do convés a praia
parecia maior; ele foi para a ponte de comando. A porta estava aberta, Artaud entrou
e sentiu uma calmaria suspensa no ar; segurou o timão mas não havia movimento,
sinal de que o leme estava bastante danificado. Olhando ao redor ele viu uma porta
que dava acesso a outro compartimento, mexeu na imensa maçaneta mas a porta não
abriu. Artaud então voltou para a cadeira do comandante e sentou. Dali tinha-se uma
visão de 180°, a proa estava longe, mostrando a grande extensão do navio.
Artaud recostou-se na cadeira e adormeceu. O barco jogava de um lado a outro.
O mar estava revolto mas não havia sinal de tempestade e o céu estava cinza claro,
homogêneo. Artaud avistou alguém num bote, viu que se tratava de um náufrago. Ele
chegou perto.
-Eh! Homem. Dê-me a mão – gritou Artaud.
-Não!
-Como não! Você quer morrer aí?
-Não.
-Então! Dê-me a mão!
-Não.
-Homem, alguém já disse: “Onde está o homem, a ajuda só pode vir de outro
homem”.
-Não.
E então uma onda levou o náufrago. Artaud tentou buscá-lo com os olhos mas
não viu mais nada. Havia nos olhos daquele homem um fanatismo entranhado, esteve
tão próximo da vida mas preferiu o nada. Artaud acordou com uma mão batendo em
seu ombro.
-Eh! Amigo. Obrigado por ter vigiado a embarcação – disse Vigílio.
-Por nada. Adormeci um pouco. Levantei muito cedo.
-É assim mesmo, o sono bate quando a gente menos espera.
-Que notícias você traz? - perguntou Artaud.
-Amanhã, na maré alta, vão tentar desencalhar o navio com um rebocador.
-Vai ser um trabalho árduo.
-Sem dúvida.
-O seu nome é Vigílio, não é?
-É, e o seu...
-Artaud.
-Pois é seu Artaud, a vida nos apronta muitas surpresas. Eu mesmo ajudei a
construir este navio...
-É mesmo!?
-É. Ajudei na construção do casco. Sou metalúrgico.
-Deve ter sido um trabalho e tanto!
-Sem dúvida – disse Vigílio.
Artaud percebeu como as palavras dão voltas.
-O senhor não quer tomar um café? Trouxe uma garrafa térmica da taberna.
-Sim.
Artaud então pegou uma caneca de metal e derramou o café fumegante em seu
interior. Ele levou a caneca até a boca e sentiu o contraste do ar quente com o ar frio.
-Está ótimo!
-O pessoal da taberna faz um café muito bom. Entre o vinho e o café, no
trabalho, prefiro o café. Ele aquece e mantém a lucidez.
-É verdade, mas o vinho tem a vantagem de aquecer o corpo.
-É, principalmente na companhia de uma mulher – disse Vigílio sorrindo.
-É verdade.
-Aceita mais café?
-Não, obrigado.
-Você sabe o que este navio contêm nos porões? - perguntou Vigílio.
-Não.
-Carrega toneladas de grãos de trigo.
-Dá pra alimentar muita gente.
-Infelizmente não.
-Não!?
-Não. Esses grãos não vão chegar às bocas dos que necessitam realmente. São
para exportação, vão para as bocas dos abastados do Norte.
-Parece até que o navio desejou que o trigo ficasse por aqui – disse Artaud
sorrindo.
-Conhece a estória do velho pescador lutando contra os tubarões para preservar
o seu marlin capturado? - perguntou Vigílio.
-É uma bela estória. No final da luta só restou a carcaça do peixe espada –
disse Artaud.
-Sim, é uma bela estória. Os tubarões daqui vão primeiro esvaziar os porões
para que o navio fique leve. Talvez deixem o navio por aqui mesmo. Afinal, este
navio já está bastante danificado – disse Vigílio.
-Não vão querer um esqueleto desse tamanho na praia. Viraria um monumento
ao desperdício.
-Sinto-me tão impotente como aquele velho – disse Vigílio.
-Amanhã será outro dia, amigo.
-Esse amanhã demora muito.
-Tem razão.
-Estou aqui pra ganhar um dinheiro extra. A vida está cara, não há emprego
suficiente – desabafou Vigílio.
-O desemprego impera. Bom, tenho que ir agora, foi um prazer em conhecê-lo.
Boa sorte – disse Artaud.
-Obrigado, amigo.
Artaud desceu do navio e caminhou pela praia. Ao longe avistou o imponente
farol numa paisagem tranqüila. “Como um lugar tão tranqüilo pode ser chamado de
Enseada do Homem Mau?” - perguntou Artaud para si enquanto ia em direção da

Taberna da Lua.

NA ENSEADA - 4° Capítulo do romance Caminhos de Artaud. Obra registrada no Escritório de Direitos Autorais da Biblioteca Nacional - Rio de Janeiro - Brasil - 2012
ANTONIO FERNANDO

UMA BREVE ANÁLISE DO JOGADOR BRASILEIRO - por POETAeATEU

UMA BREVE ANÁLISE DO JOGADOR BRASILEIRO - por POETAeATEU

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Eis o 3° Capítulo do romance Caminhos de Artaud

Eis o 3° Capítulo do romance Caminhos de Artaud

NA PRAIA
Artaud caminhava pela praia pisando em conchas partidas. Pensava no mundo
febril, doente. “É preciso uma mudança radical para que a raça humana encontre o
caminho da paz. Os homens maus controlam tudo; tudo é um grande império a
serviço da sordidez, da mesquinharia. O capital domina tudo e a todos num tempo de
trevas com tanta luz de modernidade. O que fazer?” Uma pergunta clássica que
Artaud fez a si mesmo.
À beira-mar um pequeno barco de pesca se aproximou.
-Muita pesca? - gritou Artaud.
-Não. O mar não está pra peixe! - respondeu o pescador solitário.
-O homem pulou do barco e o empurrou para a areia.
-Veja!Um dia e uma noite no mar só para pescar essa pequena quantidade.
-É lamentável – disse Artaud.
-Nada como um dia após o outro – lembrou o pescador.
“É um homem cheio de esperança; um dia eu também fui assim” - pensou
Artaud.
-Boa sorte, pescador.
-Boa sorte, moço.
Artaud não é tão jovem e nem tão velho, não tem mais a loucura dos jovens e
nem a comodidade dos velhos. Tem, simplesmente, a consciência que pode caber à
todos.
Sentado à mesa, enquanto saboreava um copo de vinho, Artaud observava a rua
através da vidraça do restaurante do hotel. Lá fora fazia frio e caía uma chuva fina;
um ônibus elétrico fez a curva e soltou uma faísca azulada iluminando a paisagem
acinzentada. “Um dia assim é lindo” - pensou Artaud.
De repente, uma mulher trajando capa e guarda-chuva atravessou a rua e
caminhou apressada em direção ao hotel. Sob a marquise da portaria ela fechou o
guarda-chuva e o sacudiu levemente, deixando cair pingos sobre o tapete vermelho da
recepção. Artaud observava a movimentação da mulher com atenção. “Ela se parece
com a mulher da estação. Será ela?” - pensou ele. Sua divagação é interrompida por
um clarão azulado vindo da rua. Quando voltou a olhar para o saguão ela já não se
encontrava mais. Assim como apareceu... desapareceu. Artaud levantou-se e foi ao
saguão, ainda sentiu seu perfume doce no ar.
Era preciso caminhar sob a chuva fina, daquelas que acaricia o corpo e a
mente. Para Artaud não existia mau tempo. Existia, isso sim, o tempo em suas
variadas formas, e aquela era uma bela forma.
Artaud pôs-se a caminhar pela rua no momento em que a chuva amainava. Da
sacada de um sobrado um menino fazia bolhas de sabão, dezenas delas flutuavam no
ar; uma delas foi para perto do rosto de Artaud e na altura dos seus olhos explodiu em
minúsculas gotículas refrescantes. Artaud lembrou do tempo quando ainda era um
menino e também fazia bolhas de sabão, e elas ficavam iridescentes sob o sol de sua
terra distante.
A tarde já declinava e ele continuava a caminhar observando as pessoas. Em
frente a um bar, Artaud parou e dirigiu-se à uma das mesas na calçada. Já sentado,
sentiu o esforço que os músculos das pernas fizeram. Ele pediu uma cerveja. Olhou o
brilhante líquido dourado no copo, frio como aquele dia, e bateu-lhe uma profunda
melancolia. Há muito tempo que não fazia isso, sentar-se à mesa de um bar para
pensar na vida, para lembrar dos amigos que partiram e dos que não verá jamais...
Enquanto Artaud estava perdido em suas lembranças um homem se aproximou.
-Eles estão bombardeando a cidade sem parar! - gritava o desconhecido.
“Não há limites para o império” - pensou Artaud.
-O senhor deseja mais uma cerveja? - perguntou o garçom.
-Não, obrigado.
-Não há de quê.
-Filhos da puta! - disse em voz alta Artaud.
-Ahn...
-Os imperialistas!
-Compreendo, senhor.
-Sabe qual é a diferença deste país para o país deles? - perguntou Artaud.
-Não.
-É que os pobres daqui são empregados da elite, enquanto a mesma elite é
empregada da elite de lá.
-O senhor deve ser comunista...
-Não dos que defendem o Estado mas dos que são Libertários.
-Não entendi.
-Não importa, amigo. Por favor, a conta.
Artaud voltou à caminhar pelos espelhos d'água. Enquanto caminhava uma
linda mulher apareceu diante dele e o convidou com um gesto à entrar num velho
prédio. Artaud não manifestou qualquer reação e a acompanhou. “Eu a conheço de
algum lugar” - pensou ele. Na meia-luz dos corredores, algumas mulheres e seus
respectivos acompanhantes se dirigiam aos seus quartos. De repente, ela parou e
abriu uma porta, a luz do quarto à iluminou por inteira. “É ela! É a mulher da estação
e do hotel!” - exclamou Artaud em seu pensamento.
-Eu conheço você – disse Artaud.
-Não me lembro de você.
-Você estava na estação quando eu gritei NÃO!
-Você!?
-Sim, eu mesmo. Você iria mesmo...
-Sim. Mas o seu grito tirou-me a coragem.
-Fazer aquilo, por quê?
-Por amor. Prostituta também ama.
-Você não deve autodestruir-se por causa de um homem – argüiu Artaud.
-Ele não, ela.
-E onde está ela?
-Foi assassinada depois daquele dia da estação, possivelmente pelo seu amante.
Ela era tão bela e jovem.
-Eu a vi – lembrou Artaud.
-Como!?
-Vi o seu corpo caído sob um céu estrelado. Naquela noite fui despertado pelo
tiro que a matou.
-O destino cruzou as nossas vidas – disse ela.
-O destino não, foi uma casualidade – disse Artaud.
-Vamos pra cama – convidou ela.
-Não, preciso ir embora. Quanto lhe devo?
-Nada, homem.
-Até breve.
-Tchau.
Ao sair do velho prédio ele sentiu um grande alívio por ter resistido ao desejo.
Afinal, para Artaud aquela mulher já não era a mesma da estação. Aquela mulher do
bordel era uma estranha, portanto não poderia compartilhar da sua dor, e nem
desejava isso. Artaud tinha consciência de que o homem é o maior inimigo do
homem, seja matando ou ignorando o seu semelhante. Caminhando pelos espelhos
d'água sentiu raiva da raça humana. Artaud parou e ficou olhando o seu reflexo
trêmulo nos espelhos.
De volta ao hotel, Artaud só deseja descansar. Ao deitar-se ligou o rádio de
cabeceira para ouvir alguma informação sobre o tempo. “Preciso pegar o avião que
parte às 7 horas” - pensou ele. Ficou mexendo no dial do rádio até que encontrou o
que queria. “... amanhã de manhã haverá um forte nevoeiro. E atenção! Acaba de
chegar a informação de que um cargueiro encalhou na Enseada do Homem Mau”.

Artaud desligou o rádio. “Preciso levantar antes do nascer do sol” - pensou ele.


NA PRAIA - 3° Capítulo do romance Caminhos de Artaud. Obra registrada no Escritório de Direitos Autorais da Biblioteca Nacional - Rio de Janeiro - Brasil - 2012
ANTONIO FERNANDO

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Eis o 2° Capítulo do romance Caminhos de Artaud

Eis o 2° Capítulo do romance Caminhos de Artaud

NO AEROPORTO
O último bimotor levantou vôo do poeirento aeroporto. No seu relógio de pulso
os ponteiros marcavam sete horas e dez minutos. Ofegante, Artaud parou, olhou para
cima e viu o avião dar um sobrevôo no aeroporto, cortando o ar com os seus motores.
-Merda! Preciso sair daqui o quanto antes – disse ele em voz baixa.
A saída do próximo avião estava prevista para o dia seguinte. A volta a estação
e a viagem de trem trouxeram lembranças dolorosas. Mas, outra noite em seu quarto
de hotel, com a janela aberta, deixando a brisa entrar, até que não seria ruim. Afinal, a
viagem até aqui foi longa e cansativa.
De volta ao seu quarto, Artaud abriu a pequena mala, retirou um tabuleiro de
xadrez e montou as peças para jogar uma velha partida conhecida.
-Peão três bispo do rei; peão três do rei; peão quatro cavalo do rei; rainha cinco
da torre. Xeque-mate! - disse ele em voz alta.
“É uma partida simples, rudimentar, mas fascinante. O exército branco iniciou
o ataque, fez dois lances e perdeu a guerra. Loucura? Não. Apenas menosprezo diante
do inimigo” - pensou ele.
Artaud não conseguiu dormir. Os pensamentos vinham em turbilhões. Para ele
a esperança era uma doce ilusão num mundo em guerra.
-Não às ilusões!
A dor na cabeça aumentou, o mundo pareceu estar ruindo. Tudo era pendular.
Ele abriu a porta do quarto e se dirigiu ao último lance de escada. No fim do corrimão
uma porta apareceu, ele botou a mão na maçaneta e a girou. A porta abriu, deixando
entrar luz e ar fresco. Artaud caminhou pelo terraço; imagens distorcidas do passado
apareceram em sua visão, como num imenso caleidoscópio. Seu único desejo era
ficar livre, liberto das dores do mundo... Finalmente chegou ao parapeito. Ele botou a
cabeça no espaço, a altura era estonteante, e vomitou sobre a cidade. O alívio foi
imediato, Artaud respirou fundo até o ar frio arder-lhe os pulmões. De volta ao quarto
ele dormiu um sono profundo.
A brisa fez balouçar as cortinas brancas, translúcidas. Uma velha música, saída
de um rádio distante, embalou seus ouvidos; ele inspirou fundo em melancolia.
Artaud sabia que o avião não ia esperar, mas não tinha importância. Naquela manhã
ele decidiu ir até ao penedo do litoral.
O farol era imponente, com suas faixas vermelhas e brancas intercaladas, sobre
a beira do penhasco. Artaud olhou admirado para aquela construção.
-Alô faroleiro! - gritou Artaud.
De uma casa próxima surgiu um homem curtido pelo sol e pelo vento, com
uma barba branca realçando o seu rosto.
-Olá!
-Olá, amigo. O senhor é o faroleiro? - perguntou Artaud.
-Sim, sou eu mesmo. O único por aqui a bastante tempo.
-Gostaria, se possível, de conhecer o farol lá no alto.
-Claro, afinal eu não tenho muito trabalho por aqui mesmo.
-O senhor é bastante simpático.
-Obrigado. As vezes é bom ter pessoas por perto para conversar.
-A vida aqui deve ser bastante solitária.
-Sim, é, mas eu gosto da solidão. As vezes a solidão é tanta que eu ouço o meu
próprio pensamento.
-O meu nome é Artaud.
-O meu é Galileu.
-Galileu! - exclamou Artaud.
-Sim, Galileu. O meu pai gostava muito de ciências, daí o nome. Tenho um
irmão que chama-se Copérnico.
-O seu pai devia ser um homem bem culto.
-Sim, ele era. Quando jovem ele queria ser astrônomo, mas acabou na marinha
mercante como telegrafista. Eu também segui os passos dele. Queria ser aviador e
acabei como telegrafista. Hoje estou aposentado pela marinha mercante. Estou aqui
no farol desde então.
-O senhor deve ter viajado muito.
-Ah! Sim. Conheço todos os continentes. Estive em vários lugares.
-O senhor...
-Por favor, trate-me por você.
-Você deve ter muitas histórias.
-Tenho sim. Vamos tomar um café que passei agora a pouco – convidou
Galileu.
A casa era pequena, rústica, mas aconchegante. Galileu serviu o café em
canecas e começou a falar.
-Uma vez navegando pela costa oriental africana o meu navio recebeu um
torpedo na proa. Só tive tempo de pegar uma bóia e me atirar ao mar. Passei três dias
e três noites agarrado à bóia, até ser resgatado por um navio mercante. Dos dez
homens da tripulação só três sobreviveram, três morreram na explosão e quatro foram
devorados pelos tubarões!
-Foi uma experiência terrível! - disse Artaud.
-Sim, foi. Você aceita mais café?
-Não, obrigado.
-Então vamos para o farol.
-Galileu, depois que fechou a porta da casa, apontou para o farol e disse:
-É bonito, não é?
-Sim – concordou Artaud.
-Você tem medo de altura? - perguntou Galileu.
-Acho que não.
-Então vamos subir. Segure firme na escada, eu vou na frente.
-No alto do farol o vento batia mais forte. Artaud segurou no corrimão da
mureta de proteção em volta do farol, ergueu a cabeça e respirou fundo o ar que vinha
do mar. Olhou fascinado para os espelhos refletindo a luz solar. Galileu mexeu nas
alavancas fazendo os espelhos moverem-se para os lados.
-Aqui dentro há uma potente lâmpada alimentada por um pequeno gerador. Os
espelhos multiplicam em muitas vezes a potência da lâmpada. Não há tripulação que,
à milhas daqui, não perceba a luz do farol, até em dia de nevoeiro. Alguns navios
enviam sinais luminosos de congratulações, eles sabem que o faroleiro está sempre de
prontidão. Este ponto geográfico é muito importante em suas rotas – explicou
Galileu.
-Seu trabalho é muito importante – disse Artaud.
-O farol também é muito importante para os pescadores. À noite, em mar
aberto, eles se orientam pela luz do farol. Meu trabalho é esse: orientar as pessoas.
Ao anoitecer, e em dias de nevoeiro, eu estou sempre aqui para acender o farol.
-Você tem família? - perguntou Artaud.
-Não, não tive tempo. Sempre viajei e agora estou aqui, isolado do mundo –
disse Galileu.
De repente uma gaivota surgiu do azul, diante dos olhos de Artaud, flutuando
ao vento.
-Ela parece não ter receio, está quase ao alcance das mãos – disse Artaud.
-Aqui em cima devemos parecer pássaros. Ela nos vê como amigos. Estamos
bem alto, no caminho dela – comentou Galileu.
-É emocionante poder vê-la voar tão perto.
-É verdade, Artaud. Parece até que estamos voando com ela. Um dia, se a
minha vida não tiver mais sentido, eu vou segui-la nesse vôo.
-Você não precisa voar. A sua vida já adquiriu sentido desde que você veio
parar aqui – disse Artaud.

NO AEROPORTO - 2° Capítulo do romance Caminhos de Artaud. Obra registrada no Escritório de Direitos Autorais da Biblioteca Nacional - Rio de Janeiro - Brasil - 2012
ANTONIO FERNANDO