Eis o 2° Capítulo do romance Caminhos de Artaud
O último bimotor levantou vôo do poeirento aeroporto. No seu relógio de pulso
os ponteiros marcavam sete horas e dez minutos. Ofegante, Artaud parou, olhou para
cima e viu o avião dar um sobrevôo no aeroporto, cortando o ar com os seus motores.
-Merda! Preciso sair daqui o quanto antes – disse ele em voz baixa.
A saída do próximo avião estava prevista para o dia seguinte. A volta a estação
e a viagem de trem trouxeram lembranças dolorosas. Mas, outra noite em seu quarto
de hotel, com a janela aberta, deixando a brisa entrar, até que não seria ruim. Afinal, a
viagem até aqui foi longa e cansativa.
De volta ao seu quarto, Artaud abriu a pequena mala, retirou um tabuleiro de
xadrez e montou as peças para jogar uma velha partida conhecida.
-Peão três bispo do rei; peão três do rei; peão quatro cavalo do rei; rainha cinco
da torre. Xeque-mate! - disse ele em voz alta.
“É uma partida simples, rudimentar, mas fascinante. O exército branco iniciou
o ataque, fez dois lances e perdeu a guerra. Loucura? Não. Apenas menosprezo diante
do inimigo” - pensou ele.
Artaud não conseguiu dormir. Os pensamentos vinham em turbilhões. Para ele
a esperança era uma doce ilusão num mundo em guerra.
-Não às ilusões!
A dor na cabeça aumentou, o mundo pareceu estar ruindo. Tudo era pendular.
Ele abriu a porta do quarto e se dirigiu ao último lance de escada. No fim do corrimão
uma porta apareceu, ele botou a mão na maçaneta e a girou. A porta abriu, deixando
entrar luz e ar fresco. Artaud caminhou pelo terraço; imagens distorcidas do passado
apareceram em sua visão, como num imenso caleidoscópio. Seu único desejo era
ficar livre, liberto das dores do mundo... Finalmente chegou ao parapeito. Ele botou a
cabeça no espaço, a altura era estonteante, e vomitou sobre a cidade. O alívio foi
imediato, Artaud respirou fundo até o ar frio arder-lhe os pulmões. De volta ao quarto
ele dormiu um sono profundo.
A brisa fez balouçar as cortinas brancas, translúcidas. Uma velha música, saída
de um rádio distante, embalou seus ouvidos; ele inspirou fundo em melancolia.
Artaud sabia que o avião não ia esperar, mas não tinha importância. Naquela manhã
ele decidiu ir até ao penedo do litoral.
O farol era imponente, com suas faixas vermelhas e brancas intercaladas, sobre
a beira do penhasco. Artaud olhou admirado para aquela construção.
-Alô faroleiro! - gritou Artaud.
De uma casa próxima surgiu um homem curtido pelo sol e pelo vento, com
uma barba branca realçando o seu rosto.
-Olá!
-Olá, amigo. O senhor é o faroleiro? - perguntou Artaud.
-Sim, sou eu mesmo. O único por aqui a bastante tempo.
-Gostaria, se possível, de conhecer o farol lá no alto.
-Claro, afinal eu não tenho muito trabalho por aqui mesmo.
-O senhor é bastante simpático.
-Obrigado. As vezes é bom ter pessoas por perto para conversar.
-A vida aqui deve ser bastante solitária.
-Sim, é, mas eu gosto da solidão. As vezes a solidão é tanta que eu ouço o meu
próprio pensamento.
-O meu nome é Artaud.
-O meu é Galileu.
-Galileu! - exclamou Artaud.
-Sim, Galileu. O meu pai gostava muito de ciências, daí o nome. Tenho um
irmão que chama-se Copérnico.
-O seu pai devia ser um homem bem culto.
-Sim, ele era. Quando jovem ele queria ser astrônomo, mas acabou na marinha
mercante como telegrafista. Eu também segui os passos dele. Queria ser aviador e
acabei como telegrafista. Hoje estou aposentado pela marinha mercante. Estou aqui
no farol desde então.
-O senhor deve ter viajado muito.
-Ah! Sim. Conheço todos os continentes. Estive em vários lugares.
-O senhor...
-Por favor, trate-me por você.
-Você deve ter muitas histórias.
-Tenho sim. Vamos tomar um café que passei agora a pouco – convidou
Galileu.
A casa era pequena, rústica, mas aconchegante. Galileu serviu o café em
canecas e começou a falar.
-Uma vez navegando pela costa oriental africana o meu navio recebeu um
torpedo na proa. Só tive tempo de pegar uma bóia e me atirar ao mar. Passei três dias
e três noites agarrado à bóia, até ser resgatado por um navio mercante. Dos dez
homens da tripulação só três sobreviveram, três morreram na explosão e quatro foram
devorados pelos tubarões!
-Foi uma experiência terrível! - disse Artaud.
-Sim, foi. Você aceita mais café?
-Não, obrigado.
-Então vamos para o farol.
-Galileu, depois que fechou a porta da casa, apontou para o farol e disse:
-É bonito, não é?
-Sim – concordou Artaud.
-Você tem medo de altura? - perguntou Galileu.
-Acho que não.
-Então vamos subir. Segure firme na escada, eu vou na frente.
-No alto do farol o vento batia mais forte. Artaud segurou no corrimão da
mureta de proteção em volta do farol, ergueu a cabeça e respirou fundo o ar que vinha
do mar. Olhou fascinado para os espelhos refletindo a luz solar. Galileu mexeu nas
alavancas fazendo os espelhos moverem-se para os lados.
-Aqui dentro há uma potente lâmpada alimentada por um pequeno gerador. Os
espelhos multiplicam em muitas vezes a potência da lâmpada. Não há tripulação que,
à milhas daqui, não perceba a luz do farol, até em dia de nevoeiro. Alguns navios
enviam sinais luminosos de congratulações, eles sabem que o faroleiro está sempre de
prontidão. Este ponto geográfico é muito importante em suas rotas – explicou
Galileu.
-Seu trabalho é muito importante – disse Artaud.
-O farol também é muito importante para os pescadores. À noite, em mar
aberto, eles se orientam pela luz do farol. Meu trabalho é esse: orientar as pessoas.
Ao anoitecer, e em dias de nevoeiro, eu estou sempre aqui para acender o farol.
-Você tem família? - perguntou Artaud.
-Não, não tive tempo. Sempre viajei e agora estou aqui, isolado do mundo –
disse Galileu.
De repente uma gaivota surgiu do azul, diante dos olhos de Artaud, flutuando
ao vento.
-Ela parece não ter receio, está quase ao alcance das mãos – disse Artaud.
-Aqui em cima devemos parecer pássaros. Ela nos vê como amigos. Estamos
bem alto, no caminho dela – comentou Galileu.
-É emocionante poder vê-la voar tão perto.
-É verdade, Artaud. Parece até que estamos voando com ela. Um dia, se a
minha vida não tiver mais sentido, eu vou segui-la nesse vôo.
-Você não precisa voar. A sua vida já adquiriu sentido desde que você veio
parar aqui – disse Artaud.
NO AEROPORTO - 2° Capítulo do romance Caminhos de Artaud. Obra registrada no Escritório de Direitos Autorais da Biblioteca Nacional - Rio de Janeiro - Brasil - 2012
ANTONIO FERNANDO
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