“Merda! Perdi o trem” - pensou ele. A estação estava deserta. Ele observava as
luzes do último vagão a se perder na distância quando um bêbado passou
cambaleando, tentando segurar-se ao nada. Num banco da outra plataforma uma
mulher olhava no sentido contrário. A noite estava fria e o firmamento era um veludo
com estrelas cintilantes. Ele pensou na imensa solidão entre as estrelas. Por mais
longa que seja a vida de um homem, ela será tão curta quanto a distância entre um
trem e outro. Ele sentia o silêncio ao redor quando na outra plataforma, diante dele, a
mulher acendeu um cigarro, cruzou as pernas mostrando as coxas nuas, carnudas, e
um olhar triste.
O tempo passava e o trem não chegava. Uma brisa fria soprou eriçando os
pêlos do corpo. Do outro lado a mulher parecia fria e insensível ao frio. “Por que
fazemos da vida um enigma tão grande?” - pensou ele. “Como gostaria de saber a
arte de dobrar papel, fazer passar o tempo com as mãos”. Botou a mão no bolso da
calça e procurou por um pedaço de papel; ao encontrá-lo começou, lentamente, a
fazer uma gaivota, das que fazia quando menino. A gaivota subiu, fez uma curva e
pousou suavemente perto da mulher. Ela olhou, tragou profundamente e soltou no ar
frio um jato de fumaça azulada. “É uma mulher bonita e elegante, mas tão fria como
o ar que a rodeia” - pensou ele.
Num momento tudo parecia parado, a não ser o movimento compassado do
ponteiro dos segundos do relógio da estação. Ele lembrou da brincadeira dos meninos
da sua cidadezinha apostando corrida com o trem. Todos acreditando na possibilidade
de vencê-lo. Acreditava na possibilidade de quebrar os limites na desigualdade. Era
apenas um menino e tudo era movimento.
A mulher jogou a guimba no chão e ficou olhando para o lado de onde viria o
seu trem. Ele a observava, pois é impossível para um homem não observar uma
mulher solitária. No entanto, em dado momento, ele desviou o olhar em direção ao
firmamento e olhou a quantidade imensurável de estrelas. “Como a distância entre
dois seres humanos pode, apesar de tão próximos no espaço e no tempo, ser igual a
de anos-luz” - pensou ele.
A luz do trem ainda era fraca quando apontou ao longe. A mulher levantou do
banco e caminhou para a borda da plataforma pisando, sem querer, na gaivota de
papel. Os sapatos altos brilhavam refletindo a luz do farol que se aproximava. Ela
ficou parada, imóvel, esperando o trem chegar. A locomotiva passou em alta
velocidade e foi parando lentamente no fim da plataforma. Os vagões, com seus
interiores iluminados, tomavam todo o espaço em frente à plataforma. Ele tentou
observar a mulher por entre as janelas, mas não conseguiu. O trem começou a ganhar
velocidade e quando o último vagão passou... lá estava ela de pé, olhando o trem
sumindo na distância. “Por que perdeu o trem? Deve estar esperando alguém” -
pensou ele.
A mulher voltou para o banco, sentou e acendeu um cigarro. Ele desviou o
olhar e viu ao longe o farol do seu trem que se aproximava. “Devo pegá-lo ou não?
Não, vou ficar e ver o que ela fará” - pensou ele. O trem chegou, parou e partiu rumo
ao fundo negro da estação, deixando ele de pé na plataforma, olhando fixo para
aquela mulher. “Idiota! Perder o trem para bisbilhotar o comportamento de uma
mulher aparentemente perturbada”. A mulher, indiferente ao comportamento dele,
olhava para o relógio da estação. Ele voltou para o banco e pôs-se à pensar. “Ela só
pode estar esperando alguém, talvez o namorado, o marido ou um amigo. Pela lógica
o próximo trem será o dela. Menos tempo em sua presença antes do meu trem chegar.
Depois de sua partida será o espaço vazio da estação e uma angústia pelo seu olhar
angustiante”.
O tempo parecia esticar os minutos até o farol iluminar a escuridão. A luz foi
aumentando com o compasso dos segundos. Ela levantou, ele também. Ambos
caminharam para a borda, ele sentiu uma angústia profunda no medo do seu olhar.
Ela deu mais um passo e ele gritou:
-NÃO!!
E o trem passou rasgando o espaço... parou por uns segundos e logo iniciou o
movimento. Quando o último vagão passou ela apareceu de pé.
-Obrigada! Você salvou a minha vida – gritou ela.
-A vida é para ser vivida. Viva a vida! - exclamou ele.
A mulher deu um sorriso e caminhou para a saída da estação. Ele sentiu uma
mistura de felicidade e apreensão. “Até quando ela...” O trem despontou ao longe e se
agigantou. O bêbado levantou-se do banco e dirigiu-se cambaleante para a borda,
numa fração de desequilíbrio ele tentou segurar o vazio e mergulhou no espaço no
mesmo instante em que a locomotiva bateu em seu corpo num barulho surdo. Ele viu
tudo como se estivesse vendo um filme em câmera lenta. De repente tudo era
silêncio. “Ele estava tão perto de mim e não pude salvá-lo” - pensou ele.
Uma voz feminina avisou pelo alto-falante que haveria atraso nessa linha
devido o acidente. Ele resolveu sair da estação, ir embora dali. Antes, olhou para trás
e viu o maquinista debruçado na borda da plataforma procurando pelo que restou de
um ser humano.
No dia seguinte Artaud acordou com gosto de sangue, no banheiro abriu a bica
e cuspiu. A mistura de água e sangue fez um redemoinho até entrar pelo ralo. Tudo
era tão surrealista, a estação ainda pulsava em seu cérebro como as batidas de um
relógio atrasado. Artaud caminhou até a janela e a paisagem descortinou-se azul e
luminosa. Ele olhou a imensidão da parte que cabia em sua visão e pensou, sem
ilusões, no mundo dominado pela prepotência e arrogância e na quase
impossibilidade de transformá-lo. Artaud tinha consciência de que era uma mísera
partícula num oceano de míseras partículas. Ele fixou o olhar num ponto distante, e o
close do rosto dela tomou todo o campo de visão. As sobrancelhas espessas faziam
arcos em olhos vivos, castanhos. A pele clara e os cabelos negros esvoaçantes eram
como partes de um quadro que ele deslocou um pouco para a esquerda, deixando
aparecer um céu azul, um deserto abóbora e ao longe um beduíno coberto de azul. A
visão era de uma estória que ainda não é, pois não tinha começo e fim. Era uma
imagem que tornou-se uma fixação. Ele sentiu que podia desenvolver o conto, mas
não sabia como. A maturidade ditará o caminho, fazendo a estória aparecer por
inteira. De repente, num piscar de olhos, a mulher da estação aparece no quadro, por
inteira, sorrindo para ele; foi quando um vento frio, como o do deserto, soprou em
seu corpo apagando a visão. Artaud fechou a janela e foi tomar um café. O líquido
fumegante aqueceu o frio da manhã de outono; ele lembrou das folhas caídas ao chão,
encrespadas pelo clima da estação. Artaud também estava encrespado pela dor, pela
angústia, pela decepção, pelo que poderia ter feito e não fez, pelo que poderia ter sido
e não foi, pelo tempo perdido em sonhos impossíveis. Tudo é tão trágico, a vida que
se apaga; o café que esfria; a descoberta da falsidade das pseudo verdades; a crença
na vida eterna e os devaneios de todas as religiões. Artaud sorveu o café amargo com
prazer. “A vida não é doce, é apenas um lampejo num tempo qualquer” - pensou ele.
A noite parecia calma, o firmamento estava coberto de pontos luminosos e a
brisa fresca tocava o seu corpo. Tudo era luz e plasticidade na noite de outono.
Artaud respirou fundo, engolindo o frescor da noite; foi deitar, deixando a janela
aberta.
Na fronteira da vigília e do sono, quando a sonolência ainda é um estado de
prazer, Artaud foi despertado violentamente por um forte barulho que fez quebrar o
silêncio. Ele achou estranho, não ligou e permaneceu deitado, mas um burburinho
chamou-lhe a atenção e o fez levantar e ir até a janela. “Preciso ver o que está
acontecendo” - pensou ele. Artaud dirigiu-se ao local onde havia um círculo de
pessoas, abriu caminho por entre os curiosos e viu uma jovem mulher estendida ao
chão; um filete de sangue escorria de sua boca. Era o fim de uma vida numa noite
serena. Quem a matou? A pergunta ficou pairando em ar álgido da madrugada.
Artaud sentiu um alívio pela desconhecida da estação, a vida pareceu-lhe uma faca de
dois gumes. Ele subiu os degraus, passo a passo, segurando no corrimão. O suor era
frio e a cabeça começou a doer; o mundo parecia estar ruindo. Tudo era cruel,
nenhuma ajuda era possível. Ninguém apareceu, nenhuma viva alma, muito menos
morta. Nada, a não ser a sua dor.
ESTAÇÃO - primeiro capítulo do romance Caminhos de Artaud. Obra registrada no Escritório de Direitos Autorais da Biblioteca Nacional - Rio de Janeiro - Brasil - 2012
ANTONIO FERNANDO
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